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Memória Roda Viva

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Telê Santana

22/6/1992

O técnico, reconhecido internacionalmente, nega fama de pé-frio e defende que a beleza do futebol nasce de um bom treinamento

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Programa ao vivo.

Jorge Escosteguy: Boa noite. Depois de 9 anos de jejum, o futebol brasileiro conseguiu conquistar de novo a Taça Libertadores da América. Dessa vez, coube ao São Paulo Futebol Clube conquistar o título, tornando-se candidato ao Mundial Interclubes. O São Paulo deve disputar o mundial contra o Barcelona, da Espanha, em dezembro. Nessa campanha vitoriosa e em outras, dirigiu o São Paulo um treinador magro, aparentemente mal-humorado, que no passado jogou como ponta-esquerda do Fluminense, do Rio de Janeiro. Um treinador que colecionou muitos títulos ao longo de sua carreira e foi considerado pelo doutor Sócrates [ex-jogador da Seleção Brasileira de Futebol e médico, Sócrates de Oliveira (1954-)], hoje, talvez mais conhecido como irmão do Raí [de Oliveira, ex-jogador da Seleção Brasileira de Futebol, revelado no São Paulo Futebol Clube], o grande gênio tático do futebol do mundo. Esse gênio chama-se Telê Santana e é o convidado desta noite no Roda Viva, que está começando agora pela TV Cultura de São Paulo. Telê Santana tem 61 anos e nasceu em Itabirito, Minas Gerais. Como jogador, atuou pelo Fluminense, Madureira e Vasco da Gama, 3 times do Rio de Janeiro, e pelo Guarani, de Campinas. Como técnico, conquistou quase todos os títulos possíveis: campeão carioca, campeão paulista, campeão mineiro, campeão gaúcho, campeão brasileiro e campeão da Taça Libertadores da América. Só não conseguiu ser campeão do mundo com a Seleção Brasileira, que dirigiu por 2 vezes, em 1988 e 1986. Os maldosos chegaram a dizer que Telê Santana era pé-frio, pois não conseguiu ganhar a copa com uma das melhores seleções já formadas em toda história do futebol brasileiro. Tomara que todo time de futebol tenha um técnico pé-frio como Telê, pois, certamente, não iriam lhe faltar títulos. Para entrevistar Telê Santana esta noite no Roda Viva nós convidamos Roberto Benevides, colunista de esportes do jornal O Estado de S. Paulo; Osmar Santos, comentarista de esportes da Rádio Globo; Sérgio Sá Leitão, editor de esportes da Folha de S. Paulo; Roberto Bascchera, repórter do Jornal do Brasil; Luis Alberto Volpe, editor de esportes da TV Cultura; Sidney Mazoni, sub-editor de esportes do Jornal da Tarde; Roberto Avallone, diretor de esportes da TV Gazeta, e Wilson Ferreira Junior, repórter da Rede OM de Televisão. Boa noite, Telê.

Telê Santana: Boa noite.

Jorge Escosteguy: Você sempre defendeu – e é considerado talvez o último técnico romântico do futebol brasileiro–, um futebol bonito, futebol de gols, ofensivo, futebol-arte. Agora, a final da copa Libertadores, não foi muito assim. Quer dizer, foi 1 x 0 lá
[em Rosário, na Argentina], com gol de pênalti, e 1 x 0 aqui, com gol de pênalti. A decisão foi na disputa de pênalti. Você sentou mais o pé no chão e resolveu esquecer o futebol-arte em função dos títulos ou são contingências da final?

Telê Santana: Eu diria que, nas 2 partidas, quem assistiu viu, o São Paulo atacou, tanto lá em Rosário como aqui, procurou fazer os gols e perdeu gols. Isso não quer dizer que não seja um time ofensivo, que não consiga fazer os gols que cria, mas nós criamos lá e aqui. Tivemos um futebol ofensivo, mas, infelizmente, as 2 partidas terminaram em 1 x 0, com 1 gol de pênalti para cada lado. Mas continuamos acreditando no futebol, muito embora uma decisão quase nunca se apresente com um bom futebol.

Jorge Escosteguy: Parece que, depois do jogo, você tirou o sapato e mostrou o pé à imprensa. Como é que foi essa história? É mentira essa história de pé-frio?

Telê Santana: Não, eu não gosto, porque quando nós ganhamos o primeiro título aqui, em Bragança Paulista, a primeira pergunta dos repórteres no campo foi: “– É essa resposta que você dá?” E eu não tenho que dar resposta para ninguém. Eu sei o que eu fiz dentro do futebol, o que eu consegui, o que eu conquistei desde que eu comecei a jogar futebol no Fluminense. Eu sei o que eu conquistei. Então, não é porque um ou outro fala que eu sou pé-frio que eu vou me preocupar. No início até me chateou um pouco e, como tenho todos os títulos na cabeça, eu andava dizendo: “– Ah, eu ganhei isso, ganhei aquilo”, mas depois eu deixei de lado, porque são pessoas que não mereciam nem que eu respondesse.

Jorge Escosteguy: Agora, você acha que... Esse é o terceiro título consecutivo pelo São Paulo?

Telê Santana:
É, nós disputamos 4 e ganhamos 3.

Jorge Escosteguy: Você acha que com essa conquista essa história está morta?

Telê Santana: Não, eu...

Jorge Escosteguy: Aliás, desculpa, no começo do programa eu disse que você era aparentemente mal-humorado e você fez um gesto assim, como se fosse fazer uma observação. Mas eu me lembro que, na cobertura da imprensa sobre o título do São Paulo, as pessoas disseram maravilhadas: “O Telê Santana sorriu”. Como é que é essa história? Você é uma pessoa mal-humorada, não gosta de conversa?

Telê Santana:
Eu sou uma pessoa muito alegre. Às vezes, diante das câmeras, eu fico um pouco sisudo, porque eu tenho que estar sempre atento às perguntas que vão me fazer, que quase sempre são perguntas maliciosas. Eu tenho que estar preparado, com um pé atrás. Como mineiro, eu sou assim, mas eu sou uma pessoa extrovertida, alegre, quando estou com os amigos conto piada, com a família eu sou um dos mais alegres, com os irmãos, com os sobrinhos, com os netos. Então, eu não sou nada disso. Muita gente pergunta assim: “– Mas você na televisão é completamente diferente. Eu pensei que você fosse um cara sisudo, carrancudo e você é um cara espetacular”. Então é assim. Felizmente, quem me conhece de fora sabe que eu não sou nada do que pareço na televisão.

Sidney Mazzoni: Telê, quando o ponta-esquerda do Newell's Old Boys foi bater a penalidade, a quarta penalidade, e chutou para cima, praticamente entregando a taça nas mãos do São Paulo, a TV mostrou você ao lado do gramado parecendo uma estátua. Você estava frio, não moveu um músculo, os jogadores choravam, se abraçavam, alguns ajoelhavam no meio do campo. O futebol não te comove mais?

Telê Santana:
Comove, comove e muito. Eu procuro é me controlar. Eu sou uma pessoa que não pode ficar entusiasmada, não pode ficar triste, eu tenho que estar com uma postura diferente dos outros, do torcedor, do dirigente e até dos próprios jogadores. Então, eu procuro manter a calma, eu procuro me controlar e isso são muitos anos de vida. Perdemos uma Copa do Mundo também nos pênaltis. Eu estava em um momento igual ao que eu estava ali, no momento em que um jogador daquele perdeu o pênalti, e não dependia mais de mim. O que eu podia fazer já havia sido feito. Então, ali, eu procurei transmitir tranqüilidade àqueles que iriam bater os pênaltis e encerrei a minha participação. Aí, era tudo com eles.

Osmar Santos:
Telê, eu queria que você dissesse, em cima até do que o Mazzoni disse, que a final foi dura, foi dramática, como toda final é quase sempre. Mas você jogou contra o
Newell's Old Boys, um time que joga muito defensivamente, que sabe marcar como ninguém e jogou domingo contra o Vasco, um time que deixa jogar. E domingo foi um espetáculo bonito, o jogo de ontem, de 2 x 2. O São Paulo teve chance até de ganhar, o Vasco criou oportunidades, enfim... Enfim, eu acho que o futebol brasileiro joga – e deveria ser todo mundo assim–, um futebol mais romântico, como já dissemos, joga para fazer um espetáculo. Mas muita gente se preparou para não deixar o outro jogar e eu acho que, quando nós enfrentamos isso, nós não sabemos sair dessa marcação. O Raí não achou espaço, o Müller [Antônio Carlos Correa da Costa, ex-jogador da Seleção Brasileira e do São Paulo] teve dificuldade. Enfim, o São Paulo enfrentou a maior dificuldade para ganhar do Newell's Old Boys, coisa que eu acho inferior ao Vasco e a Europa, que quase toda joga assim. Você não acha que você e os técnicos deveriam estudar isso com mais carinho, criar fórmulas para sair dessa marcação?

Telê Santana:
Bom, eu vou dizer, mesmo jogando desse jeito, se você analisar o jogo, nós poderíamos ter feito 3 gols com tranqüilidade. Nós erramos os lances de gol, o Müller perdeu, o Raí perdeu e me parece que teve um outro jogador que perdeu gol. Mas nós tivemos as oportunidades que foram criadas, mesmo com tudo fechado, como nós sabíamos que eles iriam jogar. Hoje, está acontecendo isso no futebol realmente, todo mundo espera para contra-atacar. É só isso o futebol, ninguém malícia ou procura uma tentativa de modificar isso.

Osmar Santos: Não dá para criar?

Telê Santana: Não, dá, mas nós jogamos assim, pô. Nós jogamos, nós pegamos o time do
Newell's Old Boys, jogamos no campo deles e pressionamos. Nós não ficamos atrás, esperando o Newell's Old Boys vir para depois contra-atacar.

Osmar Santos:
O
Newell's Old Boys é melhor ou pior que o Vasco?

Telê Santana: São equipes diferentes. O
Newell's Old Boys veio aqui para empatar o jogo.

Osmar Santos: Não, mas, tecnicamente, ele não é inferior?

Telê Santana:
É inferior, eu acho que é inferior.

Osmar Santos:
Então, o que deu mais trabalho?

Telê Santana:
Tem muito pontapé, eles defendem muito bem, têm uma defesa muito alta, porque, na medida em que um time se defende, obriga o outro a jogar bolas altas na área. Com bolas altas a gente não faria gol e nem o
Newell's Old Boys, porque eles têm grandes jogadores defensivos e atacantes também que fazem muitos gols de cabeça. Eles fazem muitos gols de cabeça, nós nos preparamos, inclusive, para não tomarmos gols de cabeça deles. Contra o América de Cali [da Colômbia], eles fizeram 1 gol de cabeça e acabaram se classificando com esse gol. Mas nós sabíamos disso, eles vieram para se defender e contra-atacar, como tiveram que fazer.

Osmar Santos:
Jogaram um grande futebol.

Telê Santana: É.

Osmar Santos:
Nós temos mais dificuldade, não temos?

Telê Santana: Bom, isso é para qualquer um. Você analisa: destruir uma casa ou construir uma casa? Você leva 1 ano para construir e em 1 segundo você destrói uma casa. É a mesma coisa o futebol. Você ajeitar um sistema ofensivo é muito mais difícil do que o defensivo. O defensivo você coloca todo mundo ali atrás, sabendo que os jogadores cabecearão bem ali e você fecha.

Osmar Santos:
Quem tem muito talento joga, o técnico joga como o
Newell's Old Boys?

Telê Santana: Joga, joga como o
Newell's Old Boys.

Jorge Escosteguy:
Roberto, sua vez.

Telê Santana:
E jogando pelo resultado também.

Jorge Escosteguy:
Roberto, sua vez.

Roberto Bascchera:
Telê, voltando à fama do pé-frio, que você não gosta de falar muito desse assunto...

Telê Santana: Não, eu não me importo mais, pode falar à vontade.

Roberto Bascchera:
Você disse o seguinte, que essa fama do pé-frio, de autoritário, foi criada por uma meia dúzia de inimigos seus. Eu gostaria que você falasse quem são esses inimigos.

Telê Santana:
Eu não diria que são inimigos, são pessoas que não gostam de mim e de graça.

Jorge Escosteguy:
Na imprensa ou fora da imprensa? Porque a Helena, de São Paulo, por exemplo, telefonou aqui perguntando: "A que você atribui o seu relacionamento muito tumultuado com a imprensa?"

Roberto Bascchera:
Quem seriam essas pessoas?

Jorge Escosteguy:
É da imprensa ou é fora da imprensa?

Telê Santana:
Eu estava até conversando antes, aqui, quem me chamou primeiro de pé-frio foi o Sérgio Barklanos [jornalista esportivo com passagem pelo Jornal da Tarde, A Gazeta Esportiva, TV Tupi, TV Record, falecido em 1999]. Então, foi ele que iniciou isso e os outros pegaram, porque nós perdemos uma Copa do Mundo. Depois, veio a outra Copa do Mundo. O Baklanos antes cobria o Palmeiras e nós perdemos um campeonato para o Palmeiras que não podíamos perder. Foi nos bastidores que eles ganharam aquele titulo de 79. Então, ele começou a falar. Em uma entrevista coletiva na Copa do Mundo, em que eu estava sendo ovacionado por todos, jornalistas do mundo todo batendo palmas, eu fiquei emocionado de cair lágrimas dos olhos, eu levantava agradecendo e eles continuavam em pé, batendo palmas, e ele [o Sérgio] veio me fazer essa pergunta nessa hora. Então, todo mundo reverenciando o grande espetáculo e ele veio falar isso comigo. Então, pegou esse negócio de pé-frio, que no início me chateou um pouco, mas depois eu pensei: "Bom, por que eu vou me chatear com um ou outro que fala isso se eu tenho tantos títulos conquistados?" E eu comecei como vencedor, ganhando títulos como jogador, ganhando no juvenil, ganhando no time principal. Iniciei a carreira como técnico ganhando 3 títulos seguidos. Então, sou um homem pé-frio, pô? Eu comecei no futebol como técnico do Fluminense ganhando 3 títulos seguidos. Então, eu sou um homem de sorte.

Jorge Escosteguy:
Telê, o Avallone está fazendo vários sinais ali. Eu acho que ele quer fazer uma pergunta para você.

Roberto Avallone: Não, eu acho que não foi o Barklanos que começou isso não. Eu chamo o Telê Santana de mestre, é o
melhor técnico que eu já vi ao longo da minha carreira, mas ele está com uma briguinha com o Sérgio Baklanos sobre a matéria.

Telê Santana:
Não, eu não, isso já foi resolvido há muito tempo.

Roberto Avallone:
Eu vou defender o Baklanos, porque eu estava ali.

Telê Santana:
Não, mas não defenda, não, porque é verdade.

Roberto Avallone:
Porque durante a campanha....

Telê Santana:
É verdade, eu fui o entrevistado, ele começou...

Roberto Avallone: Eu acho que foi em função de perder as copas sem começar...

Telê Santana:
Começou, você está defendendo um colega. Mas não vem com essa, não. Eu abro o jogo, para mim não tem jogo escondido, não.

Roberto Avallone: Eu vou pegar a bola aqui, senão a bola fica só com o Osmar Santos. É o seguinte: você me diz que o holandês Johan Cruijff [ex-jogador da seleção holandesa, um dos principais nomes do futebol mundial, conhecido por suas táticas e capacidade de adaptação em diferentes jogadas] era o seu símbolo do futebol moderno. Em uma noite, no hotel, o Palmeiras exibia tapes do Cruijff, mostrando que ele, além de ser craque, também lutava o tempo todo. Então, nós tivemos vários parâmetros, vários símbolos do futebol ao longo dos tempos. Nos anos 50, o Pelé e o Mané Garrincha, depois o Cruijff e o Maradona. Quem seria capaz, hoje, Telê, de reverter a síndrome do contra-ataque? Porque praticamente todo mundo joga no contra-ataque. Qual seria o jogador, o símbolo, o parâmetro, capaz de contra-atacar, de atacar e defender? Quem seria o seu ídolo hoje?

Telê Santana: Não, não tenho ídolo. Eu já disse algumas vezes que a minha maior satisfação seria um dia dirigir um time como o da Holanda de 74 [referindo-se à seleção holandesa, que disputou a final da Copa do Mundo de 1974 contra a seleção da Alemanha. Apesar de ter perdido o jogo, a seleção holandesa foi a que mais se destacou no campeonato por conta das estratégias desenvolvidas em campo, sendo
apelidada de "Laranja Mecânica"]. Era um time em que você pegava o Cruijff e jogava para a lateral direita. Se tivesse de que coloca-lo na lateral esquerda, ele também jogaria. Pegava um Neeskens [Johan Neeskens], que jogava na ponta direita ou na ponta esquerda. Enfim, todos jogavam em qualquer posição. Então, essa é uma equipe de futebol que se movimenta o tempo todo dentro de campo. A gente faz isso aqui, no Brasil, pelo menos no São Paulo, com alguns jogadores.

Roberto Avallone: Quem, por exemplo?

Telê Santana: O Antônio Carlos [Cerezo], por exemplo. Você solta o Antônio Carlos, o Cafu [Marcos Evangelista de Moraes, jogador capitão da Seleção Brasileira de 2002, que foi pentacampeã na Copa no Mundo] você solta. Nós tínhamos o Leonardo que jogava na ponta esquerda e jogava pelo meio. Então, você procura fazer com aqueles que têm qualidades para fazer. O que eu falava do Cruijff era o seguinte. Eu dava um exemplo da partida decisiva da Copa do Mundo de 74, na Alemanha. Eu vi a Alemanha sair em um contra-ataque rápido e o Cruijff saiu atrás como um louco. Me parece que o meia esquerda, ele foi e deu um carrinho, como o Raí às vezes faz. Ele deu um carrinho, tomou a bola e partiu em um outro contra-ataque. Então, esse é um exemplo que eu dou para os jogadores, porque aqui, no Brasil, não se admitia que um Sócrates desse um carrinho, que um Zico [Arthur Antunes Coimbra] desse um carrinho para tomar uma bola. O craque não podia dar um carrinho, não. O futebol mudou e todo mundo tem que melhorar também, tem que mudar com o futebol. Por isso é que eu dava como exemplo o Cruijff, que nas partidas saía atrás do adversário, dava carrinho para tomar a bola e partia para o contra-ataque. Aqui, no Brasil, o craque ficava esperando o "cabeça-de-bagre" [termo do futebol para designar um jogador medíocre ou ruim] tomar a bola e entregar para ele jogar.

Roberto Avallone: Como o Didi [Valdir Pereira
(1929-2001), jogador da Seleção Brasileira]?

Telê Santana: É, então isso não existe mais no futebol, não se pode mais jogar assim. O Raí mesmo, quando eu cheguei no São Paulo, ele era um jogador que não participava da tomada de bola, assim como fazia o Sócrates também, quando chegou na seleção. Então, o Raí entendeu perfeitamente e hoje é um jogador que luta, que briga pela posse de bola, que dá aqueles carrinhos e sabe dar muito bem, como um europeu. Ele dá com o pé, puxa a bola sem fazer falta e sai com ela. É isso.

Jorge Escosteguy: Você mencionou Sócrates e Raí. Eu não posso deixar de perguntar: você diria hoje que o Sócrates é mais conhecido como irmão do Raí ou o Raí é mais conhecido como irmão do Sócrates?

Telê Santana: Os 2. Eu consido o Sócrates como sendo um grande jogador e o Raí também. No ano passado, inclusive – não digo este ano, porque ele realmente caiu um pouco–, mas no ano passado, o melhor jogador que tinha no Brasil era o Raí. Ele caiu um pouco, a gente não sabe bem qual o motivo, talvez por vir de uma seqüência de jogos muito forte. Ele não agüentou esse ritmo e caiu um pouco, mas é um jogador inteligente, habilidoso, com grandes qualidades e que a gente aproveita muito do que ele sabe fazer.

Jorge Escosteguy: Roberto Benevides, por favor.

Roberto Benevides: Telê, embora o São Paulo não tenha essa filosofia ofensiva que você falou, me parece que não foi só o Raí que caiu este ano. O time como um todo também. Quer dizer, o São Paulo não está jogando aquele padrão envolvente, bonito, do final do ano passado. Por que isso?

Telê Santana: É muito difícil você avaliar. É claro que um time tem períodos em que se conserva em boa forma e vai em frente, vai ganhando. Outras vezes, você modifica o que tem que modificar, como nós já modificamos. Depois que eu estou aqui, em cada campeonato que disputamos houve mudanças no time. Algumas para melhor e outras que não deram certo, mas procuramos sempre mudar o time e isso vem do próprio ser humano. Me parece que alguns se sentem satisfeitos com o que já têm, com o que já aconteceu, e não brigam mais, relaxam um pouco. Isso faz um time cair. Nós tivemos 5 derrotas seguidas, pois houve um relaxamento quase que total dos jogadores. Havia cobrança, havia tudo, mas você sentia que eles haviam relaxado. Ganhamos o campeonato, está bom... e relaxa. Então, foi preciso incentivá-los novamente, cobrar mais deles para que a gente tivesse um rendimento melhor e esse rendimento veio logo a seguir, começando com a Libertadores e também com o Campeonato Brasileiro. Chegamos a nos classificar no Brasileiro e também ganhamos a Libertadores. Então, houve uma melhora, mas ainda não atingiu o nível que nós tínhamos no ano passado.

Roberto Benevides: Mas você tem tido, por exemplo, o mesmo tempo para treinar o time que você tinha no ano passado?

Telê Santana: Não, eu não tenho. Nós tivemos que jogar muitas partidas em pouco tempo e é um desgaste muito grande por causa de viagens longas, como essa da Libertadores. Você vai para Guaiaquil [no México], são 6 horas e meia. Vai para La Paz [na Bolívia], são viagens longas e enjoadas de se fazer. Então, o treinamento caiu. Quando nós chegamos para treinar o time, eu reúno todos e digo: “Como é, está em condições de treinar?". "Ah, está doendo um pouco aqui", diz um. "E você?". "Não, está doendo um pouco." "Então, não vamos treinar, porque precisamos do jogador inteiro no dia do jogo." Então, é uma questão de lealdade, de honestidade entre a comissão e os jogadores para que eles, quando puderem treinar, possam corresponder: “Todo mundo está bom? Está bom. Então, vamos treinar um pouco.” Então, é isso que a gente faz, não pode manter um ritmo de treinamento como a gente fazia.

Jorge Escosteguy: Telê, o Wilson tem uma pergunta para você, por favor.

Wilson Ferreira Junior: Você falou, Telê, em modificações, em modificar para melhorar. Eu queria saber até que ponto você vem modificando a sua própria postura como técnico para melhorar também? Eu acho que esses 3 títulos do São Paulo são um exemplo disso. Você tinha uma certa fama de técnico meio fechado, que não se comunicava, não era muito aberto ao contato com o elenco, e isso vem mudando no São Paulo. A gente sabe que, na própria decisão do Brasileiro, contra o Bragantino, o elenco influiu na própria escalação do time. Você tem tido esse contato com os jogadores, principalmente com o Raí, que é o líder do elenco. Até que ponto você se modificou e até que ponto isso foi bom para você como técnico?

Telê Santana: Eu não sou tão fechado como muita gente pensa.

Wilson Ferreira Junior: Mas já foi mais do que é hoje?

Telê Santana: Não, eu sou um cara aberto, como sempre fui, um cara aberto para conversar com os jogadores. Eu tive um time, por exemplo, o Grêmio, de Porto Alegre, só de jogadores experientes. Eu conversava com todos eles, eu me entendia com todos eles. Então, você conversa às vezes com jogadores que podem te trazer alguma coisa. Tem jogadores, por exemplo, que, por estarem iniciando a carreira, não têm ainda capacidade para te orientar ou te mostrar alguma coisa. Então, essa conversa eu tenho sempre com os jogadores. Eu não sou isso. Eu digo que os outros me pintam de uma forma que eu não sou. Eu sou um cara às vezes até duro com vocês da imprensa, mas vocês vêm ali e... Outro dia uma repórter de uma televisão disse: “– Você é tão duro com a gente e com a torcida você tem o maior carinho!”. Então, eu falei para ela: “– Ao torcedor tudo, à imprensa parte.” [Risos] Ao torcedor tudo e eu fui torcedor e sei. Então, eu sei o que é ser torcedor, eu não saio do campo sem dar o último autógrafo, pode ter 100 pessoas me pedindo. Eu não tenho essa paciência [com a imprensa], porque vocês não são isso tudo que vocês querem fazer, não. Vocês botam a gente contra o fogo, contra tudo, e às vezes mentem, como outro dia o próprio Sérgio Baklanos [risos].

Roberto Avallone: Me deu um susto agora...

Telê Santana: Ele disse uma mentira e eu fui pra cima dele na presença de torcedor, na presença de jornalista, na presença de diretores e de jogadores. Porque são coisas que eu não aceito da imprensa: inventar mentira. Isso vocês não podem.

Wilson Ferreira Junior: Você acha que a imprensa inventa muito, Telê?

Telê Santana: Alguns inventam, alguns. Essa foi uma invenção, porque ele disse no jornal dele que eu tinha pedido à diretoria uma extensão de telefone para colocar no meu quarto e ficar ouvindo as conversas dos jogadores. Então, eu fui obrigado a dar uma bronca nele ali, porque eu não sou moleque e isso é coisa de moleque. Nunca pedi nada e nem pedi à diretoria para botar telefone no meu quarto. Eles quiseram colocar, mas um número diferente, que ninguém fala no telefone a não ser eu. Então, foi só para mostrar que eu não aceito invenções e mentiras. Muitos inventam e muitos também mentem. Então, a verdade é essa e a gente tem que estar sempre com o pé atrás, porque senão eles montam.

Jorge Escosteguy: O Volpe tem uma pergunta para você.

Luis Alberto Volpe: Telê, a torcida do São Paulo agora é formada por muitos jovens e é uma torcida jovem já acostumada com a vitória. Como é que você analisa o comportamento da torcida nessa final? Quando o jogo começou a ficar difícil, o tempo passava e o gol não saía, a torcida ficou completamente em pânico, muda, até que você levantou do banco para pedir o apoio da torcida. Com aquela tensão toda, só houve a distensão na hora em que o Zetti [Armelino Donizetti Qualiano, ex-goleiro da Seleção Brasileira, atua como técnico] pegou o pênalti. Você acha que essa nova torcida do São Paulo está despreparada para apoiar o time em momentos desfavoráveis? O time sentiu a falta desse apoio?

Jorge Escosteguy: Só para complementar, Telê, o Marinho da Rocha, aqui de São Paulo, telefonou perguntando como você vê a violência entre as torcidas.

Telê Santana: Bom...

Jorge Escosteguy: Complementando a pergunta do Volpe.

Telê Santana: Então, eu diria que a torcida não estava acreditando no título, estava com medo de perder. Então todo mundo ficou quieto no estádio. Um estádio como aquele, lotado como estava, a torcida tinha que estar incentivando nosso time, até porque nós poderíamos, com esse incentivo, ganhar de 2x0. Faltou esse incentivo no momento certo, aquele em que nós saímos do banco e começamos a gritar para a torcida para que ela participasse também. Porque nos ajuda muito e inibe o time adversário, a gente sabe disso, a gente que jogou futebol sabe disso. Então, a torcida calou. Inclusive a Torcida Independente, que é uma torcida que não pára durante todo o tempo de jogo e ela estava ali quietinha, parecendo não acreditar na nossa vitória. Então, foi preciso fazer aquilo. Eu acho que foi só isso, foi receio talvez de não conquistar o título. Eu estive um ano no Grêmio e no último jogo nosso também foi preciso fazer isso, sair do banco e começar a gritar para a torcida, porque havia 8 anos o Internacional [time gaúcho] era campeão. Nós estávamos vencendo de 1x0 e terminando o jogo com todo mundo encolhido, quietinho, sem torcer, o nosso campo quietinho, encolhido, parecia que não estavam acreditando que depois de 8 anos pudessem ser campeões. Aí, foi preciso gritar e para a torcida, mas eles estavam com medo e me pareceu também que foi isso que aconteceu com o São Paulo. Quanto à...

Jorge Escosteguy: Violência.

Telê Santana: Eu acho que o torcedor tem que ir a campo para torcer, para incentivar o seu time, seja ele do Corinthians, do Palmeiras, do Santos, da Portuguesa ou do São Paulo. Não tem que brigar, não tem que falar palavrão no campo. Aquilo ali é um incentivo para o jogador, não tem que procurar briga com polícia, briga com a torcida adversária, todo mundo tem que chegar em casa com saúde pelo menos. Às vezes até um pouco triste, porque seu time perdeu, e alegre quando ganha, mas esquecer o negócio de briga. Eu queria que fizessem uma campanha, porque antes de qualquer jogo entre São Paulo e Corinthians há aquela divisão. Então, abrir um espaço e chamar a torcida do São Paulo e do Corinthians para se reunirem ali, gritar o nome do seus clubes. Depois, separavam outra vez. Iria torcer cada um para o seu lado e acabar com esse negócio, porque ninguém vai a campo para morrer, para matar e nem para brigar, não pode ser assim. Então, o meu pensamento é esse com relação a violência.

Jorge Escosteguy: Para completar a roda, antes de passar ali para o Sérgio, eu só comentaria que nada mais natural do que o Internacional de Porto Alegre ser campeão depois de 8 anos [risos]. O Sérgio tem uma pergunta para você.

Telê Santana: Agora está ao contrário, agora está ao contrário.

Jorge Escosteguy: Eu sei, esse é que é o problema.     

Sergio Sá Leitão: O senhor tem uma notória paciência para ensinar fundamentos para os jogadores, nos treinos, sobre cruzamentos, fundamentos básicos do futebol, enfim. Nós podemos constatar um fenômeno, que é o seguinte: dezenas de jogadores surgem nas divisões inferiores, em eventos como a Taça São Paulo de Futebol Júnior. Chegam às seleções e depois desaparecem. Qual o problema? Por que o Brasil não é mais capaz de gerar jogadores inteligentes e técnicos? O que acontece no meio do caminho que essas gerações se perdem?

Telê Santana: Olha, eu acho que falta um treinamento de base. Um jogador, quando chega no time principal, tem defeitos que ele não pode mais ter, tem que chegar com qualidades e eu as cito: dominar a bola, passar a bola, saber bater na bola e cabecear. Esses são requisitos necessários para um jogador. Então, ele tem que aprender isso lá embaixo, no juvenil, no júnior. Eu fui técnico do juvenil, técnico do júnior. Então, você tem que aprender isso lá embaixo. Lamentavelmente, mesmo na seleção, eu recebia tantos jogadores com tantos defeitos em dominar, em passar, em chutar a bola, que a gente ficava abismado. Não se fazia trabalho nenhum nos clubes. Então, isso ele tem que saber: dominar, passar e cabecear. Eu fico brigando lá com alguns jogadores que não gostam de colocar a cabeça na bola e fico mesmo, porque cobro. Às vezes dói, mas dói mesmo um pouquinho, porque eles não sabem bater no lugar certo. Se bater na testa a bola não dói, mas todo mundo quer cabecear com isso aqui [mostra o topo da cabeça], acham que é com a cabeça que se cabeceia a bola.

Jorge Escosteguy: "Cabeça-de-bagre"?

Telê Santana: É, "cabeça-de-bagre". Então, fica nisso e eu procuro mostrar, ensinar e tanto se fala no técnico de futebol, do treinamento tático, mas não adianta você fazer o treinamento tático se não tiver o treinamento técnico, se não tiver aprimoramento no futebol. Então, você fala: "Bom, vamos armar o time tático. Aqui entra esse, ali entra esse." Na hora de passar, o jogador passa tudo errado, o que adiantou esse treinamento tático? O que adiantou? Nada. Primeiro é o técnico, você tem que saber primeiro que o jogador sabe fazer isso, sabe fazer aquilo. Você vê o Cafu, é um jogador que com a força de vontade que ele tem, ele melhorou demais, ele melhorou demais jogando na lateral direita. Ele vai, treina, domina, passa, cruza e ele cruzava muito a bola. Eu dizia para ele: "Cafu, quando você vai fazer um cruzamento na Seleção e joga a bola para fora eu fico vermelho, na frente da televisão, de vergonha de ver você fazer isso. Porque a culpa não é bem sua, não, é de quem te dirige, é de quem treina você e não ensina."

Roberto Avallone: Sobre o reforço..

Jorge Escosteguy: Agora, Telê.

Roberto Avallone: Desculpa, Jorge.

Jorge Escosteguy: Só uma janelinha para o telespectador aqui, o Cleiton Camasso, de Jundiaí. Ele telefonou e, evidentemente, é um palmeirense, porque ele pergunta: "Em praticamente todos os times que você dirigiu você conseguiu títulos. O que faltou para conseguir o título para o Palmeiras e o que falta hoje?

Telê Santana: Ah, o que prejudicou o Palmeiras foi, em 79, a bagunça que fizeram no campeonato. O Corinthians se recusou a jogar contra a Ponte Preta e parou o campeonato por causa disso. O time do Palmeiras era infinitamente superior a todos os outros. Foi aquela fase em que nós fomos para o Rio de Janeiro, o Flamengo tinha um timaço e ganhamos de 4x1. Aqui, nós ganhamos de 5x1 e era assim que nós jogávamos. A torcida ficava esperando, 4, 5, ficava pedindo os gols, porque nós ganhávamos vários jogos aqui por 5x1. Nós ganhamos vários jogos. Então, naquele ano, diante dessa recusa, o campeonato parou e só recomeçou depois das férias, um mês e tanto depois, o que igualou todo mundo e nós acabamos perdendo o campeonato. Essa foi uma razão por que nós perdemos o campeonato. Agora, nessa fase, eu não cheguei nem a completar o campeonato, quando eu estive no Palmeiras nessa última vez.

Jorge Escosteguy: Roberto Avallone, depois o Sidney e o Wilson.   

Roberto Avallone: Em relação ao Palmeiras, aconteceram alguns milagres, como aqueles escanteios cobrados. Mas, reforçando a tese do Sérgio sobre os fundamentos, o que tem me chamado a atenção, Telê, é o que nós fomos perdendo ao longo dos tempos. Nós, brasileiros, perdemos o poder do arremate [finalização de jogada], que era um dos pontos fortes da Seleção Brasileira, do futebol brasileiro, do Rosa Pinto [Jair Rosa Pinto
(1921-2005), que fez carreria no Palmeiras e jogou pela Seleção], do Pepe [José Macia (1935-), o segundo melhor atacante da história do Santos, que também ficou célebre por sua atuação na Seleção] e os europeus foram ganhando corpo nesse item. Mesmo nessa copa de agora, a Copa Européia. Se bem que a Holanda tem aquele esquema rotativo, uma novidade tática, de 3 defendendo e todo mundo circulando. Mas tem sempre o reforço do arremate. Ou seja, quantas bolas, quantos gols e quantas jogadas se preparou com o arremate? Por que nós perdemos espaço para o futebol europeu nesse item, Telê?

Tele Santana: Bom, eu vou explicar em partes. Você citou jogadores que batiam mais com a bola parada, o Pepe, o Jair Rosa Pinto. O Neto [José Ferreira Neto (1966-), jogador que passou pelo Corinthians, Ponte Preta e Guarani], hoje, também bate. Agora, realmente, nós temos uma deficiência em relação aos gramados e às bolas,
o que não é uma desculpa. Mas as bolas européias são melhores, os gramados são melhores e há mais facilidade para isso.

Jorge Escosteguy: Os jogadores são melhores?
 
Tele Santana: Os jogadores, não. Eu não nivelo isso assim, não. Nessa Copa Européia, por exemplo, eu não estou vendo nada além do que nós fizemos aqui. Até jogando em campos bons e eu não estou vendo muita coisa, não. O futebol ainda está no mesmo nível. Não há problema, o Brasil acabou de ir agora a Europa com o time montado, assim, na hora, e empatou com a Inglaterra, sendo que poderia ter ganho. E ganhou do Milan, que era considerada a melhor equipe. Então, o futebol está muito nivelado. Agora, isso pesa um pouco e, além disso, tem também a falta de treinamento. Nós precisamos treinar mais, o jogador precisa treinar mais.

Roberto Avallone:
De técnico também, Telê?

Telê Santana:
Então, o técnico tem que fazer isso, tem que aprimorar, ver os defeitos do jogador e procurar corrigir. Então, às vezes, um jogador fica meio aborrecido por chegar lá e ter que tentar 10 vezes cruzar a bola e, se bater errado, vai bater outra vez. Então, quando eu não tenho um campo bom para treinar, eu não tenho condições também de exigir isso dos jogadores. Quando o campo não tem um gramado bom, que a bola fica batendo, ele quer bater na bola e bate errado, é claro. Então, isso atrapalha um pouco. Mas falta exigência dos técnicos ao treinar os seus times.

Sidney Mazzoni:
Telê, há exatamente 1 ano atrás, um fã do seu estilo de trabalhar, da sua filosofia de jogo, me dizia exatamente o seguinte: "Com o Telê o Brasil se joga bonito e perde. Tentaram mudar e, aí, o Brasil começou a jogar feio e perder. Então, que vantagem que leva o Brasil?" Quem disse isso foi o Menotti [César Luis Menotti, "o Magro", ex-jogador e técnico argentino], que foi campeão mundial pela Argentina, em 78. E eu completo: se você pudesse retroceder no tempo, naquele time de 82 e o time de 86, você mudaria a sua filosofia de jogo? Você passaria por cima de alguns conceitos em favor do resultado? Você adotaria um esquema mais rígido, mais forte, que levasse o Brasil para um resultado positivo?

Telê Santana: Deixa eu explicar bem isso. Eu já cansei de ouvir, de ler "joga bonito, mas perde". Eu prefiro jogar feio e ganhar, isso é uma balela que se fala. Eu não pego o jogador para enfeitar a jogada, não, mas para jogar o futebol que todos nós gostamos. Quem gosta de futebol gosta de ver aquele futebol de 82, gente. Poxa, é um futebol vistoso. Eu estive no Uruguai e fui agraciado com uma medalha pelo bom futebol que o Brasil apresentou em 82. Então, os técnicos se reuniram e pediram a minha presença para me homenagear por causa daquela seleção. Então, eles diziam: "Olha, a gente via o Brasil, quando começava a trocar passe, você ia sentindo o cheiro do gol e aí o gol aparecia." Aqui eles diziam assim: "Nosso time estava jogando e eles se assustavam quando fazia um gol." Então, o futebol, para ser jogado é assim, é quem sabe jogar, para quem tem técnica para jogar. Então, você não pode chegar lá e falar: "Zico, você vai ficar aqui atrás dando bico para frente". Não, você não vai fazer isso.

Sidney Mazzoni: A beleza do futebol que se está trazendo não é o resultado, Telê?

Telê Santana: O resultado, é claro, o resultado também, mas não pense que eu prefiro fazer igual muitos dizem. Já ouvi torcedores, diretores e jogadores: “Eu quero ganhar com um gol de mão, aos 47 minutos e impedido.” Isso não me satisfaz, não.

Sidney Mazzoni: Se perguntar isso para um palmeirense, ele vai ter a resposta na ponta da língua.

Tele Santana:
Isso, não. Pois é, mas a mim não satisfaz. Não é trabalho meu. Eu não fiz nada para merecer isso. O que eu fiz? O cara chega lá, aos 47 minutos, mete um gol de mão e ganha o jogo, isso aí me satisfaz? Não. Eu vou receber meu bicho, eu fico envergonhado de receber a gratificação, de ganhar um jogo assim. Por exemplo, ele está fazendo quase a mesma pergunta é: "O que você prefere, jogar bonito e perder ou é jogar feio e ganhar?" Não é nada disso, eu quero ver o bom futebol, mas não sou eu que quero ver, não. Você quer ver, o Avallone quer, o Osmar quer, todo mundo quer ver um bom futebol. Não é melhor ver isso do que ver dar pontapé, chutar a bola para qualquer lado? É muito melhor. Eu não vou a campo para ver isso.

Osmar Santos: Se jogou bem, sempre acaba ganhando. Se jogou bem quase sempre ganha.

Tele Santana: Quase sempre ganha.

Osmar Santos: Você deu um grande azar na Copa. Você tinha o melhor time, montou tudo e não tinha time antes. Às vésperas da Copa você pegou e formou a maior seleção para se ganhar, seria até melhor que a de 70. Aliás, não dá para discutir isso, porque a outra ganhou e o senhor perdeu. Mas ali é que foi o seu grande azar da sua vida,
Telê. Porque o time jogou bonito, todo mundo te aplaudia, era de verdade.

Telê Santana: Então, mais uma vez dizendo sobre o Menotti, ele disse: "O seu time tem muito mais condições de ganhar do que o outro. Ele fica 60% do jogo com a bola e dá 30% para os outros. Então, tem muito mais possibilidade de ganhar." Ele mesmo falou isso para mim.

Osmar Santos: Agora, Telê, eu queria discutir com você sobre a última vez que nós estivemos aqui, no mesmo Roda Viva. A discussão era se você iria parar ou não, lembra? Você tinha acabado de ganhar o Campeonato Brasileiro.

Jorge Escosteguy: Acho até que ele disse que iria sair do São Paulo.

Osmar Santos:
Não, ele disse: "Olha, eu vou conversar ainda hoje à noite sobre isso." E saiu do programa e com os  diretores do São Paulo, estava o Caboclo [Carlos Caboclo, dirigente de futebol], estava não sei mais quem. Você ainda disse: “Talvez eu continue mais um pouquinho”. Isso aqui, neste programa, e você acabou, para a sorte do São Paulo e sorte nossa, que continuou no São Paulo Futebol Clube. Eu acho uma sorte para o futebol brasileiro, sorte para quem gosta de espetáculo, como você está dizendo, como eu e como muita gente gosta. Você acabou continuando e ganhou. Agora voltamos ao mesmo tema, porque está acabando o seu contrato e você tem o Mundial Interclubes e tem o Paulista pela frente. Você pretende parar ou vai continuar? Você já decidiu antecipadamente, porque antes você ainda estava indeciso.

Jorge Escosteguy:
Telê, desculpa, o Carlos Eduardo, aqui de São Paulo, também pergunta: "Quanto tempo você pretende ficar ainda no São Paulo?" E o José Augusto, também de São Paulo, quer saber: "Se você fosse sondado, se recebesse uma proposta de um time japonês, árabe ou americano, por muito dinheiro, você sairia do São Paulo para ganhar essa grana toda?"

Telê Santana: Então, eu vou dizer, não é bem contrato. É a palavra, que eu tenho com o São Paulo, de ficar até o final dos 2 campeonatos que estamos disputando. Já acabou a Libertadores.

Roberto Avallone: Em julho.

Telê Santana:
Em julho, e acaba o Brasileiro. Então, o meu compromisso com o São Paulo verbal é este: até terminar o campeonato Brasileiro. Eu não estou fazendo força para pensar nisso agora. Eu vou focar no Brasileiro, ver se a gente consegue ganhar mais esse título e, depois, então, pensar. Quanto à outra pergunta, eu não tenho muita intenção de sair do Brasil, mas se fosse uma grande proposta – e o futebol japonês agora está abrindo uma nova área  para técnicos–, se for para ganhar muito bem e fazer um grande contrato, posso até ir. Mas o meu pensamento, realmente, seria mais para parar e eu explico bem. Não é que eu não esteja mais precisando de dinheiro, não é nada disso, não. É que eu quero viver um pouco, eu disse isso naquela oportunidade, 1 ano atrás eu já dizia isso. Eu quero um pouquinho mais de tempo para viver mais com a minha família. Meus netos estão crescendo e eu estou longe deles. Então, eu quero ver se eu ainda vivo um pouco. Hoje, você disse aí 70 anos, mas eu faço 71 no mês que vem. [Corrigindo informação do texto de abertura]

Jorge Escosteguy:
Você está com 70 anos?

Telê Santana:
É e eu não fui ponta-esquerda, fui ponta-direita. [Risos]

Jorge Escosteguy: Ponta-direita, está certo.

Telê Santana:
Mas só agora ele fez a apresentação.

Jorge Escosteguy:
Está certo, você foi ponta-direita e não ponta-esquerda. Inclusive, essa é a observação que faz o telespectador Odir Machado, aqui de São Paulo.

Wilson Ferreira Junior: Nós conversamos, Telê, sobre a hipótese de...

Jorge Escosteguy: Wilson, só um minutinho, desculpe interromper, mas quero...

Osmar Santos: O Mundial Interclubes você não pode abandonar antes, Telê?

Jorge Escosteguy:
Antes que o personagem da pergunta vá dormir, até porque pode ficar muito tarde.

Osmar Santos:
É, está certo.

Jorge Escosteguy:
Te fizeram uma pergunta sobre a questão da torcida. No São Paulo, você disse que a torcida talvez ainda esteja um pouco insegura. Eu lhe perguntaria: talvez a torcida do São Paulo seja muito jovem? A torcida do São Paulo tem crescido muito, muitos jovens têm se tornado são-paulinos, vamos dizer assim. Eu tenho até um exemplo, eu tenho 4 filhos e as minhas 2 filhas, de repente, decidiram torcer pelo São Paulo. Eu ainda consegui controlar os 2 meninos, que torcem para o time do Internacional. Então, está muito dividido. Inclusive, quando você chegou aqui no Roda Viva, mostrou uma carta fantástica, maravilhosa.

Telê Santana:
De emocionar, não é?

Jorge Escosteguy:
É do garoto Bernard, que tem 9 anos, é daqui de São Paulo e escreveu para você dizendo que adora o São Paulo, que adora você, que gostaria de conhecê-lo, que não tem nada do São Paulo. Inclusive, você telefonou para ele e ele disse: "Se eu soubesse onde o senhor mora, eu até mandaria uma geléia que a mamãe faz e que é uma delícia."

Telê Santana: Isso aí é tão simples, tão bonito.

Jorge Escosteguy: Então, quer dizer, há vários garotos como o Bernard que, de repente, passaram a torcer pelo São Paulo. O São Paulo, ao contrário dos outros times e das grandes torcidas, não tem um jogador como tem o Santos, um time que tem uma grande torcida por conta do Pelé. Quer dizer, o Santos não tinha um grande time, mas tinha o Pelé. O São Paulo não tem o Pelé, ele tem uma equipe, tem um time eficiente, que está ganhando campeonato e etc. Como é que você vê esse fenômeno da torcida do São Paulo e desses torcedores jovens?

Telê Santana:
Olha, principalmente o jovem, que está começando a torcer, ele não tem ainda uma definição. Às vezes o pai obriga, como você obriga os seus filhos a torcerem para o Internacional [risos].

Jorge Escosteguy:
Ainda bem que eles continuam torcendo para o Internacional.

Telê Santana:
Mas é isso, muitos pais não tomam ciência do que o garoto faz,
para quem está torcendo. Então, ele prefere torcer para aquele que está ganhando, para ele não ser gozado pelos outros. Então, isso acontece muito entre as crianças. O menino tem um pai que é palmeirense, mas é o São Paulo que está ganhando, então é o São Paulo, porque ele vai chegar no colégio e vai brincar : “– Então, o seu time perdeu, o seu time não ganha!” Ele vai chegar “eu sou são-paulino, o São Paulo está ganhando”. Então, isso acontece muito e isso faz realmente o time crescer. Na época do Santos, tinha realmente o Pelé que, mesmo aqueles que não eram torcedores dos Santos, iam para o campo vê-lo. Aí eu volto àquela pergunta: por que eu ia no campo ver o Santos jogar? Eu não sou santista, eu não torcia para o Santos, mas era um grande time, eu queria ver um bom futebol. Eu falei de uma seleção que eu não torcia por ela, mas que passei a torcer durante os jogos em que eu vi... para a seleção da Holanda. Aquilo é futebol, também a Hungria, em 74. Então, eu quero ver o bom futebol e o garoto também. Ele vê a fama dos jogadores, vai vendo o time ganhar, passa a torcer por aquele time para continuar sempre sendo vencedor.

Osmar Santos:
Você vai ver o time do Parreira [Carlos Alberto Parreira (1943-), técnico de vários times importantes e ex-técnico da Seleção Brasileira de Futebol] jogar?

Jorge Escosteguy: Wilson, por favor.

Osmar Santos:
Você vai ver o time do Parreira jogar ou não dá?

Telê Santana: Quando?

Osmar Santos:
Quando jogar a Seleção.

Telê Santana:
Eu vejo sempre pela televisão, mas vejo sempre assim...

Osmar Santos:
O que te leva ao campo para ver o futebol que você gosta?

Telê Santana: Ainda não, mas pode vir até a jogar o futebol que a gente pensa que um dia pode voltar a jogar, não é?

Wilson Ferreira Junior: E voltando àquele assunto da sua permanência no São Paulo, Telê. Você conduziu a seleção em 82, foi um time excelente, mas que não chegou lá. Em 86, novamente. Não fascina você a idéia de estar a um jogo de ser, finalmente, campeão mundial? Não pela Seleção Brasileira, mas pelo São Paulo, você pode ter o seu sonhado e merecido título de campeão mundial.

Telê Santana: É, isso faz a gente balançar e pensar um pouco, não é? Porque teve todo um trabalho feito até agora, um trabalho muito bom e com mérito para todos aqueles que trabalharam: os funcionários, a comissão técnica, os próprios jogadores, a diretoria, todo mundo trabalhou. Então, agora, em um momento desse, a gente pensa realmente que falta um único jogo, em dezembro, e que a gente pode se sagrar Campeão do Mundo. Então, dá para a gente balançar e pensar um pouco mais.

Wilson Ferreira Junior:
Então, o Bernard, de 9 anos, que está em casa, ele pode ficar mais tranqüilo?

Telê Santana:
É, vamos ver se dá, viu? Vou trazer o Bernard aqui ainda para ver os nossos treinamentos e conhecer todos os jogadores.

Roberto Avallone: Esse garoto de 9 anos, em 94, na Copa dos Estados Unidos, terá 11 anos e talvez veja o futebol que você supõe, que o time do Parreira pode vir a jogar. Agora, é possível jogar esse futebol, Telê, sem treinar? Nós estamos com restrição econômica, com um grupo inconstante de jogadores... E você seria capaz de montar um time com os jogadores do exterior? Quer dizer, como é que se comporta um jogador brasileiro que atua lá fora quando vem para uma Seleção Brasileira? Ele leva a sério?

Telê Santana: Eu acho que, primeiro, precisa realmente treinar, ter tempo para treinar. Isso aí não é mágica, não é milagre o que um técnico faz. Não é pegar e botar o jogador ali e está tudo resolvido. Um grande time não se faz assim, precisa haver um entendimento do futebol em conjunto, tem que haver entendimento. E os jogadores que estão lá fora, as restrições que se faz a esses jogadores são as seguintes: eles ganham muito bem lá e eu acho que a Seleção não é para você ficar rico, não é para você ganhar, é para você defender. Eu sempre fui contra o problema de brigas por causa das gratificações na Seleção.

Roberto Avallone:
É o que acontece em toda Copa.

Telê Santana: Em quase toda Copa acontece. Aconteceu comigo. Mas o jogador tem que ficar ciente de que ele está ganhando ali. Mesmo não ganhando nada em dinheiro, ele está ganhando muito em fama, em contratos posteriores. Depois de uma Copa do Mundo, ele ganha muito. Ele está investindo nele mesmo. Então, não é aquele momento de mais mil dólares, mais 5 mil dólares, não é isso que resolve. E eu tenho receio, porque lá fora, realmente, eles ganham muito mais do que aqui. Às vezes, alguns chegam aqui querendo ganhar o que ganham lá, fazendo certas exigências e enfiam coisas na cabeça daqueles que aqui estão. Isso prejudica. Então, o futebol tem que ser pensado da seguinte forma: vamos jogar na Seleção. Eu mesmo, em 86, não me ouviram, eu dei o meu parecer, pois já tinha a experiência de 82. “Olha, pega esse time, reúna todos, quando convocar os jogadores, reúna e diga: de hoje em diante as normas são essas, não há garantia de nada, não. Cada jogo que ganhar ou cada passagem para uma outra fase, ganha tanto. E o título é tanto.” Não se deve ficar fazendo jogo, mas às vezes acontecia, ofereciam algo lá embaixo e os jogadores diziam: "Ah, estão oferecendo lá embaixo. Então, vamos pedir lá em cima." Então, não tinha um meio-termo, não chegavam em um acordo e isso é muito ruim. Então, chega e diz: "é isso e acabou, quer?" "Ah, não, isso é pouco para mim." Então, esse já está fora da Seleção. É assim, tem que abrir o jogo e depois dizer realmente: "Olha, esse não ficou porque não quis ficar." Então é assim: abrir o jogo. Não vai ter aquele negócio de depois ficar aborrecido, porque ele mesmo não aceitou as condições. É o que a CBF [Confederação Basileira de Futebol] pode pagar, não pode pagar mais, é aceitar ou não.

Jorge Escosteguy: Telê, o Roberto tem uma pergunta para você.

Roberto Bascchera:
Telê, voltando à questão da sua carreira. Em 90 você foi contratado pelo São Paulo, perdão, antes você disputou o título contra o Corinthians e perdeu. Você resolveu continuar no São Paulo. O São Paulo contratou o Oscar [Rodriguez], que te sucederia quando você parasse, mas você foi continuando, continuando e o Oscar foi embora. Então, o que aconteceu nesse episódio do Oscar que ele resolveu não ficar, não esperar a sua saída?

Telê Santana: Eu mesmo pedi para que viesse o Oscar, porque eu confesso que já não era a minha intenção ficar. Quando nós ganhamos o campeonato houve uma insistência por parte da diretoria para que eu continuasse. Então, nós ganhamos e eu, mais uma vez, cedi. Desde a primeira vez que me contrataram, isso foi em outubro, eu não queria ir, porque eu tinha saído do Palmeiras recentemente e magoado, chateado com o futebol. Eu não queria trabalhar, mas a insistência do Carlos Caboclo fez eu vir para o São Paulo. Como amigo, eu acabei atendendo. Eu não perguntei quanto iria ganhar, não perguntei nada, eu só pedi uma coisa: "Olha, em dezembro não me peçam para ficar", foi a única coisa que eu pedi. “Não, pode deixar, nós não vamos pedir, não”. E eles não cumpriram a palavra. Chegou dezembro, nós perdemos o campeonato, mas nós já estávamos mal no campeonato quando eu cheguei e acabamos disputando o título. Então, eles foram me pedir para continuar: “– Fica só mais 6 meses.” Então, eu tenho feito uma renovação verbal de 6 em 6 meses. Eu nunca falo 1 ano, nem 2 anos. Eles, há pouco tempo, me propuseram fazer um contrato de 2 anos. Então, eu não vou fazer 2 anos. E o Oscar veio e eu expliquei: “Olha, Oscar, eles vieram para mim e eu não tive como negar. Eu vou ficar mais 6 meses, mas eu gostaria que você continuasse conosco, porque você vai acabar pegando o time na hora que eu sair. Também, para você, é bom, é mais experiência, é mais conhecimento sobre os jogadores que você tem no São Paulo." Mas ele achou melhor sair, porque ele tinha outras aspirações, queria dirigir logo uma equipe e por isso ele não quis continuar.

Roberto Bascchera: Você conversa com ele hoje?

Telê Santana: Não, eu não estive mais com o Oscar. Ele não apareceu mais, não sei se ele foi para a fazenda dele, não sei. Ele não apareceu aqui mais.

Jorge Escosteguy:
Telê, um pouquinho antes do fim do primeiro bloco você falou muito sobre a Seleção Brasileira. Eu ia deixar essa questão um pouquinho mais para o final, mas eu tenho aqui uns 10 telespectadores e eu vou citá-los todos: José Roberto Mota, de São Paulo; Marco Aurélio Miranda, também de São Paulo; Inês Mosqueto, de Jaú; Victor Marques, de Campinas; Valdeci Pole, de São Paulo; Celso dos Santos, de Guarulhos; Marcelo Pargini, também de São Paulo; Adolfo Pinto, também de São Paulo; José Augusto Silva, de Araraquara e Getúlio Badu, de Guarulhos. Todos eles fazem, basicamente, a seguinte pergunta: você volta a ser técnico da Seleção Brasileira?

Telê Santana: Não, eu não.

Jorge Escosteguy: Gostaria de voltar a ser convidado?

Osmar Santos:
Se convidado for, não é, Telê?

Telê Santana:
Não, eu não volto, eu não agüento mais esse caminhão, não.

Jorge Escosteguy: Inclusive, o Adolfo que chega a dizer: "Será possível morrer sem tentar novamente a seleção da Copa do Mundo?"

Telê Santana: Não, não dá mais, não.

Jorge Escosteguy:
Não dá por quê?

Osmar Santos: Depois você volta.

Jorge Escosteguy:
Por que não dá?

Telê Santana: É um trabalho danado e você não tem sossego.

Jorge Escosteguy:
Mas você se queixa de não tem sossego no São Paulo, diz que faz isso e a imprensa entende aquilo, que é um trabalho danado, que não dá para treinar, jogador está machucado...

Telê Santana: Eu atendo a imprensa, o que eu às vezes acho ruim é que cada um quer uma exclusiva e não dá para fazer isso como a gente fazia na Seleção. Quando se faz uma entrevista dessa, cada um faz uma pergunta, você responde e está tudo resolvido. Agora, cada um chega com um gravador e tem que fazer a sua, porque o Osmar [Santos] cobra do cara lá, não é? O cara tem que fazer. Então, ele vem, ele faz: “– O que você achou do jogo com o Vasco?” E vem outro: “– O que você acha do jogo com o Vasco?” E, aí, outra vez, pô. São 10, 20 rádios e quando tem um jogo...

Jorge Escosteguy:
Aqui, com raras exceções, só tem cacique, só tem cacique.

Telê Santana:
É, só tem cacique, pois é.

Jorge Escosteguy: Volta para a Seleção, volta para a Seleção, volta para a Seleção.

Roberto Avallone: Só precisa arrumar um jeitinho de ter uma chaminé aqui, porque é proibido fumar durante uma entrevista com Telê. É o seu único pecado, único pecado.

Telê Santana: E por falar de fumar, é importante que se diga que não tem um jogador no São Paulo que fuma. É é importante que se diga.

Jorge Escosteguy: Por quê? Você os proibiu de fumar?

Telê Santana:
Não, não há proibição, não há proibição, não, há a democracia.

Jorge Escosteguy:
Voltando à Seleção, Telê, bom trabalho dá trabalho?

Telê Santana:
É porque cansa. É muito cansativo, a família sofre, os amigos sofrem e eu tenho amigos. Quer dizer: “Está vendo, o seu amigo lá perdeu.” Então, eles cobram até dos amigos, até dos amigos eles cobram. O Orlando, por exemplo, o Pingo de Ouro [Orlando de Azevedo Viana
(1923-2004), jogador], meu amigo do Rio, disse: “Puxa, os caras quase chegaram a me agredir.” Então, quando perde, perde também o seu amigo.

Jorge
Escosteguy: O que precisaria mudar para você voltar à Seleção?

Telê Santana: 
Não precisa mudar nada, eu não volto, não.

Jorge
Escosteguy: De repente, você não diz: "Puxa, eu poderia ser campeão do mundo pela Seleção Brasileira."

Telê Santana:
Eu não vou tentar.

Jorge
Escosteguy: "Poxa, eu ganhei tantos títulos!"

Telê Santana: Eu não vou tentar mais.

Osmar Santos:
E supervisor, de repente... ser supervisor junto de um outro técnico?

Telê Santana:
Não, a única coisa que eu ainda sei fazer é treinar um time de futebol, se sei. Mas eu, supervisor?

Osmar Santos: Nada disso?

Telê Santana:
Não, eu não.

Sidney Mazzoni: Você trabalharia nesse esquema que o Parreira está trabalhando com o Zagalo?

Telê Santana:
Não, eu não trabalharia.

Sidney Mazzoni: Nesse esquema, não?

Telê Santana: Não.   

Osmar Santos: Nem se o cara chegasse e dissesse: "Não, eu quero você"? Porque, no ano passado, você foi eleito pela imprensa... houve a colocação de que você foi o melhor técnico, até com a possibilidade de voltar à Seleção, mas não houve um convite desse. Agora, se chegar o presidente [da CBF] e fizer um apelo, “olha, todo mundo vai te apoiar, os técnicos todos”, você não voltaria atrás nessa sua decisão, nesse seu pensamento?

Telê Santana:
Não, não quero mais, eu sofri demais.

Jorge
Escosteguy Por que você sofreu tanto?

Telê Santana:
Não, deixa eu dar só uma explicação. Uma vez eu fui com o Atlético jogar em Juiz de Fora, acho que todo mundo sabe, quando eu voltei da Seleção, em 86, essa coisa me magoou muito, essa coisa eu nunca falei e vou falar hoje aqui. Eu voltei em 86 e encontrei meu pai no CTI [Centro de Terapia Intensiva]. E , parece que uma semana depois que eu cheguei, ele morreu. Meu pai morreu e eu fui jogar com o Atlético, em Juiz de Fora. Eu sentei lá e o campo estava lotado. Um torcedor começou a me chatear, a me aborrecer, eu não olhava para ele nem nada e graças a Deus não olhei, porque...

Jorge
Escosteguy: Te chatear por causa da Seleção?

Telê Santana: É, por tudo, enfim. Quando ele sentiu que eu não ia falar nada, ele começou a falar que eu tinha matado meu pai. Então, ele gritava meu nome, falava o nome do meu pai, que eu tinha matado, que eu tinha matado, e eu não olhei para ele. Eu não sei o que aconteceria se eu visse a cara dessa pessoa. Então, eu saí dali mais desiludido ainda. A minha família não foi. Alguns disseram que foi apedrejada minha casa, mas não, nada aconteceu. Quando terminou a Copa do Mundo, em 82, eu voltei para minha casa e não houve nada. Mas é um assunto que causa sofrimento. Ainda no São Paulo, o que sofre a minha família, meus irmãos, meus sobrinhos, meus filhos, meus netos, minha mulher é uma coisa que deixa todo mundo doido. É sofrimento demais. Eu sofro aqui e eles sofrem muito mais lá. Eu não quero fazer mais fazer a minha família passar por isso.

Jorge
Escosteguy: Roberto Benevides, por favor.

Roberto  Benevides: Mas, Telê, você já imaginou o contrário? Você já se flagrou imaginando o que seria uma Seleção Brasileira se você estivesse lá desde 82 até agora, como os técnicos alemães ficam, por exemplo?

Telê Santana: É, isso seria em um outro país, não é? Você falou bem, na Alemanha pode, a Alemanha perde e não acha confusão, não há nada, ninguém te chama de burro, não te põem no jornal com as orelhas desse tamanho, lá não acontece nada disso. É gente mais consciente e reconhecedora do trabalho que foi feito. Naquele momento, todo mundo ficou aborrecido porque não ganhou e eu também, mas ninguém reconhece o trabalho que foi feito. De qualquer maneira, nós tivemos uma grande Seleção, que é reconhecida até hoje. Em qualquer país que eu vou, todo mundo fala nessa Seleção de 82, que só foi agora, recentemente, reconhecida aqui no Brasil como uma grande Seleção. Depois que praticamente nenhuma Seleção foi boa mais, começaram a lembrar de 82, que aquela foi boa, que não ganhou, mas foi boa. Então, isso é que às vezes dói na gente, porque nem reconhecimento há. Eu saí de 82 e fui para a Arábia Saudita, fiquei 3 anos na Arábia Saudita. Voltei depois para pegar novamente a Seleção, em 85, nas eliminatórias.

Jorge
Escosteguy: Volpe, por favor.

Roberto Benevides:
Durante muito tempo você teve mais prestígio no exterior do que aqui, pelo menos em termos de imprensa. Isso é uma coisa que te magoa ou não?

Telê Santana:
Não, aqui no Brasil há muito bairrismo, há muito clubismo, sabem que você vai ser sempre achincalhado, porque ganhou, porque não ganhou e tal. Vai ter problemas de imprensa, porque eu não sou simpático com todo mundo. Tem técnico que sei que manda bilhetinho, cartão, aonde vai manda cartão para jornalista e eu não mando nada. Eu, se almoço com jornalista, é nós 2 sentados e vamos dividir a despesa. Eu não vou ficar pagando almoço para jornalista, mas tem outros que fazem isso. Então, eles são mais agraciados com elogios do que outros e eu não faço isso.

Jorge
Escosteguy: Por falar em bairrismo, Telê, o Jaime Henrique telefonou de Belo Horizonte perguntando justamente se você acha que o bairrismo existente na imprensa é culpado pela decadência do nosso futebol?

Telê Santana:
É, eu acho que prejudica. Eu chego no Rio, por exemplo, e leio os jornais. Eles falam que o São Paulo é muito bairrista. Eu chego aqui e eles falam que o Rio é muito bairrista. Então, fica esse negócio, cada estado fala do outro, mas que existe bairrismo existe, na imprensa de todo mundo, mas isso não é bom. O valor  tem que ser dado para o jogador que joga bem, seja paulista, mineiro, carioca, seja o que for, tem que falar bem dele. Ou ele é bom ou não é bom e acabou.

Roberto Avallone:
Só como reforço.

Jorge
Escosteguy: Volpe, por favor.

Roberto Avallone:
Desculpe, só um minuto, mas só como reforço à tese do Roberto Benevides. O Telê Santana foi eleito no México, em 86, no México, não, na Espanha, quando o Brasil encantou o mundo – no México não encantou tanto–, foi eleito o melhor técnico daquela Copa em uma pesquisa entre os jornalistas do mundo que cobriam aquela Copa.

Jorge
Escosteguy: Volpe.

Luis Alberto Volpe:
Telê, você já não agüenta mais seleção, está cansado da imprensa, está pensando até em sair do país. Na coluna que assina na Folha de S. Paulo, aos domingos, o empresário Antônio Ermírio de Moraes pintava um quadro caótico do país. Um país doente, de analfabetos, de desempregados, instituições públicas falidas, deficientes e tal, uma tragédia. Mas ele dizia que havia um motivo para comemorar, que é essa conquista, esse título do São Paulo na Libertadores, uma conquista brasileira feita com trabalho e eficiência. Eu pergunto para você, que é um profissional tão vitorioso, assim como o empresário, você se acha uma exceção dentro do quadro de treinadores brasileiros ou internacionais? E você concorda com essa visão do empresário, que o país está desabando e está indo para o buraco?

Telê Santana: Eu acho que está.

Jorge
Escosteguy: Agora, desculpe, só complementando a questão do país. Um pouquinho antes de começar o programa você comentou que tinha visto o Roda Viva com o Aristides Junqueira [Alvarenga], o procurador da República, e se queixou dizendo que ele foi muito "mineiro", entre aspas, vamos dizer assim, nas respostas. Disse que ele devia dar mais esperança ao povo. Quer dizer, isso faz parte dessa sua visão, como perguntou o Volpe, sobre o país?

Telê Santana:
Eu acho que é uma figura tão importante hoje no Brasil – e a gente espera tanto dessas pessoas, até do próprio presidente da República–, que tem que dar esperança. Nós estamos aqui sem saber o que está acontecendo. Então, não pode ficar, como ele falou, como mineiro. Mas eu não sou desse tipo, não, eu não fico em cima do muro. Tem que ser decidido, tem que fazer alguma coisa. E notícias mais ousadas, decisões tomadas com seriedade e com lealdade, o povo quer ouvir isso: “– Olha, nós vamos fazer doa a quem doer.” Se ficar com “pode ser, pode não ser”, ninguém mais acredita. Nós estamos atravessando uma fase muito difícil e o que nós precisamos neste país é de homens. Eu considero o doutor Aristides Junqueira um homem. Quando ele entrou, gostei das suas declarações, quando ele continuou, gostei das suas declarações, mas eu quero ver um homem assim, como ele iniciou, nesse governo Collor. Tem momentos que não há mais esperança para ninguém. O povo está querendo uma palavra em que você possa acreditar e ele, sentado aqui, ficou evasivo, vai-não-vai. Eu disse até.... um termo que eu usei aqui, que ele foi um pouco "vaselina" [escorregadio] e não pode ser assim. Nós estamos esperando coisas mais drásticas, mais duras, para que a gente tenha esperança de conseguir alguma coisa.

Sidney Mazzoni: Você ainda acredita no presidente Fernando Collor? Você ouviu o pronunciamento dele ontem na TV?

Telê Santana:
Eu não assisti.

Wilson Ferreira Junior:
E só para completar, mas a carência seria de palavras ou de ação efetiva? Como ele mesmo disse, o presidente foi à TV e falou com muita ênfase, muitas pessoas ficaram assustadas. Mas a carência é de palavras ou é de ação, Telê?

Telê Santana: O
problema de acreditar ou não vai depender muito do que está acontecendo, porque é preciso você ver as decisões tomadas para depois você tomar também a sua decisão de acreditar ou não. Os homens mais importantes do país, no caso do presidente da República, do doutor Aristides Junqueira, que são homens importantes, precisam passar das palavras para a ação, porque se nós ouvirmos e não acreditarmos, também não vai adiantar nada. Então, essas pessoas não servem, das palavras devem passar aos atos, porque nós estamos esperançosos de alguma coisa. Todo  mundo está aí perdendo as esperanças, porque quando se fala em inflação de 20%, 22%, 30%, ninguém mais acredita. Todo dia o aluguel aumenta, pô. Como é que vai dizer que a inflação está menor quando tudo aumenta? Você não tem um dia em que vai ao supermercado e que não tenha aumento. Eu vou ao supermercado também, como é que posso acreditar nisso? Então, é preciso vir uma palavra que dê um pouco de esperança pra gente. Não adianta eu falar aqui, eu não sou político, eu não sou nada. É preciso que eles falem e façam.

Roberto Avallone: Quando a CPI [Comissão Parlamentar de Inquérito] concluir as suas investigações [sobre as denúncias de corrupção no governo Collor] e divulgar tudo, o que será para você essa palavra, para não ficar também vago como ficou?

Telê Santana:
A palavra, as palavras, gente. Nós estamos vivendo essa fase, eu não gosto de falar em política, mas eu leio tudo, eu ouço tudo, eu gosto de ouvir tudo, ler tudo e ver tudo. Ninguém mais fala na LBA [Legião Brasileira de Assistência, que durante o governo Collor foi dirigida pela primeira-dama Rosane Collor, acusada de mau uso de verbas públicas] ninguém mais fala do Magri [Antônio Rogério Magri, ministro do Trabalho no governo Collor, também acusado de envolvimento em esquemas de corrupção], ninguém mais fala no Alcenir Guerra [foi ministro da Saúde no governo Coolor e acusado de realizar compras superfaturadas em seu mandato], ninguém fala em nada, acabou. Agora é esse PC [Paulo Cesar Farias]  Só se fala no PC e só, já esqueceram tudo que passou. Tem um que dizem que ficou rico com esse negócio de metrô e que não conseguiram pegar o homem. Então, vai passando um em cima do outro, vai acabando tudo e não se faz nada. Será que não tem homem neste país? Será que não tem homem sério, será que não tem homem sério?

Sidney Mazzoni: O jogador de futebol tem consciência do que acontece do lado de lá do alambrado, Telê? Seja sincero?

Telê Santana:
Muita gente tem, muitos têm consciência.

Sidney Mazzoni: E o seu time, qual é o nível de conscientização?

Telê Santana: Alguns jogadores, alguns jogadores.

Sidney Mazzoni:
Na média você acha razoável?

Telê Santana: Nós temos jogadores aqui, como as outras equipes têm, que pegam o jornal, lêm a página de esportes e jogam o resto fora.

Sidney Mazzoni:
E na média e na média?

Telê Santana: Na média é mais para pior do que para melhor.

Wilson Ferreira Junior: Telê, na semana passada o deputado federal Aloizio Mercadante [atual senador, PT-SP] esteve no São Paulo dando uma palestra para os jogadores sobre a conjuntura nacional. Teve a sua participação nesse acontecimento?

Telê Santana: Não, ele não foi falar sobre isso.

Wilson Ferreira Junior: Não foi falar?

Telê Santana: Não, ele foi falar sobre emprego de capital, o que os jogadores deviam fazer, qual seria a melhor opção. Foi por isso que ele foi lá.

Wilson Ferreira Junior: E não se falou sobre política em nenhum momento?

Telê Santana:
Não. Não se falou, ele foi só para conversar com os jogadores, porque alguns jogadores pediram, queriam ter conhecimentos.

Jorge
Escosteguy: Sobre como investir o dinheiro?

Telê Santana:
Fazer investimento.

Jorge
Escosteguy: Como investir o seu dinheiro.

Telê Santana: 
É.

Jorge
Escosteguy: Agora, você diz que lê tudo, quer saber de tudo, mas você tenta transmitir um pouco de conhecimento para os seus jogadores, que você comanda no São Paulo, ou em qualquer outro time? Há essa necessidade de se preocupar com as coisas fora do futebol?

Telê Santana:
Nossa função é uma função muito difícil. Cada coisa que você fala ou que você quer mostrar ao jogador.. Eu, por exemplo, nunca falei para um jogador: "Deixa de comprar um carro e compra um apartamento." Eu não falo, porque ele já fica: “Pô, esse cara vai pegar no meu pé até na minha vida particular?” Então, eu não falo. Eu procuro de uma certa forma orientar. Eles me vêm lá, por exemplo, lendo o jornal, eu leio o jornal todo, eu ouço tudo, eu gosto de ver os jornais.

Osmar Santos:
Que jornal você lê, Telê?

Telê Santana:
Eu leio todos os jornais que chegam às minhas mãos. Eu leio todos eles. Se tem boas notícias eu estou lendo, principalmente más notícias, boas notícias eu quase não vejo e é lamentável isso. É outra coisa que incomoda, todo dia se pega o jornal é há má notícia, só má notícia, você não vê uma notícia boa.

Jorge
Escosteguy: Mas boa notícia não vende, Telê, boa notícia não vende.

Telê Santana:
Não vende? Então, é por isso que só tem más noticias.

Sidney Mazzoni:
A imprensa reflete o que acontece.

Jorge
Escosteguy: Tem muitas más notícias, mas em geral boa notícia não vende.

Sidney Mazzoni: Se a situação está ruim, a imprensa tem que dizer que está ruim.

Telê Santana:
Mas é isso que eu digo, pois é. Mas eu não estou culpando nenhum jornal, eu estou culpando é quem deixa só notícias ruins para a gente.

Sidney Mazzoni:
Ah tá.

Telê Santana:
Não é o jornal que dá notícia ruim não. É que você só pega as notícias ruins. Então, não vem notícia boa: “– Pô, até que enfim apareceu alguma coisa boa. O 147 vem aí e tal” [referindo-se ao primeiro modelo de automóvel produzido pela montadora Fiat no Brasil]. Mas não tem, não tem nada disso.

Jorge
Escosteguy: Telê.

Luis Alberto Volpe:
Eu gostaria que você complementasse...

Jorge
Escosteguy: Complementando ali, o Volpe, por favor.

Luis Alberto Volpe:
Eu gostaria que você complementasse: você se considera uma exceção na sua classe profissional? E já passou pela sua cabeça algum interesse político para se candidatar ou não?

Telê Santana:
Eu não. Eu não tenho essa pretensão de dizer que eu sou exceção. Eu acho que nós temos grandes homens, grandes técnicos, e muitos pensam da mesma forma que eu penso. Mas eu também nunca pensei em política não, eu nunca pensei. Eu acho que não se ganha dinheiro com muita honestidade, não é, O que eles ganham lá, eles mesmos aumentam salários e eu não posso acreditar e confiar em pessoas assim. Chega lá, da noite para o dia, deixam de votar vários projetos e votam no deles. “Olha, então, a partir de amanhã, nós passamos a ganhar tanto.” Eu não posso me conformar com isso, eu não posso acreditar. Eu sou um homem que, embora todos digam que eu sou pão-duro, eu não faria isso nunca.

Jorge
Escosteguy: Você é pão-duro?

Roberto Avallone:
É, você tem fama de pão-duro.

Telê Santana:
Eu fiz 2 contratos verbais com o São Paulo sem saber quanto eu iria ganhar e...

Jorge
Escosteguy: Mas você tem fama ou é verdade?

Telê Santana:
...tinha plenas condições de exigir. Não, eu já expliquei. Eu sou de família pobre. Eu tinha 9 irmãos, faleceu um recentemente.

Osmar Santos:
Você é aposentado, Telê?

Telê Santana:
Sou.

Osmar Santos: É por isso que você está preocupado com o 147 [risos]?

Telê Santana:
Também, é, porque eu trabalhei durante muito anos, eu trabalho desde 1947.

Sidney Mazzoni:
Você vai receber todo o mês o seu carnê [de aposentadoria]?

Telê Santana:
Vou, claro que vou, merecidamente.

Sidney Mazzoni:
Fica na fila, lá?

Telê Santana:
Não, é direto no banco.

Roberto Bascchera:
Telê, essa fama de pé-frio é um negócio interessante, porque você tem 3 carros. O principal deles você ganhou. Você tem um apartamento no Rio, um em Belo Horizonte, o outro em São Paulo, um em cada lugar que você trabalha. Você compra o seu apartamento para você não pagar aluguel e, no São Paulo, você não precisou comprar o seu próprio  apartamento, porque o São Paulo deu o CT [Centro de Treinamento] para você. Tem alguma coisa de inverdade nessa história de pé-frio.

Jorge
EscosteguyDe pé-frio, não, de pão-duro, de econômico?

Roberto Bascchera:
Ah, desculpe, de pão-duro?

Telê Santana:
Não, até o meu inquilino deve estar assistindo, ele paga muito pouco para morar [risos]. Eu queria que ele saísse, porque eu estaria morando lá, mas ele não sai. Ele vai, diz que sai no fim de ano... Ele deve estar assistindo e tem que ter pena de mim.

Jorge
Escosteguy: Qual é mesmo o nome dele?   

Roberto Bascchera: É são-paulino ele?

Jorge
Escosteguy: Como é o nome dele?

Telê Santana:
Eu nem sei o nome.

Roberto Bascchera:
E você não precisou comprar apartamento em Porto Alegre, porque na época o Grêmio pagou o aluguel para você.

Telê Santana: É, eu só não comprei lá porque o Grêmio pagou o aluguel. Aqui, eu vim trabalhar no São Paulo em 73, para não pagar aluguel, realmente, eu comprei um apartamento. Fica em Moema e está lá até hoje.

Roberto Benevides:
Telê, você não tem... [entrevistadores falam juntos]

Jorge
Escosteguy: Um de cada vez, por favor.

Roberto Benevides:
Telê, você não tem direito, pelo acerto com o São Paulo, a um outro apartamento para morar?

Telê Santana:
Posso morar, mas é que eu tenho preferência...

Roberto Benevides:
Mas por que você mora ali no São Paulo?

Telê Santana:
Porque eu gosto dali, é bom.

Roberto  Benevides: Não é para ouvir as conversas, não?

Telê Santana:
Olha, outro dia, depois que teve essa conversa, eu fiz questão de levar os jogadores, porque eu esclareço tudo, eu não deixo para depois. Então, eu levei ao conhecimento deles. Tinha saído isso no jornal e perguntei o testemunho de muitos que moram lá, se algum dia eu teria entrado no quarto de um jogador, ou em hotel, ou em concentração. Eu sei de muitos técnicos que mandam deixar a chave do lado de fora da porta para ele chegar, abrir e ver se o jogador está lá, ou o que é que está fazendo. Eu nunca entrei no quarto de um jogador, nunca. Então, eu pedi, para esclarecer, para que eles não ficassem desconfiados de mim. Porque uma noticia dessas vai fazer o jogador ficar desconfiado de que eu estou querendo ouvir conversa. Eu sei lá o que é que os jogadores falam, não me interessa, não é problema meu. Eu passo perto deles e eles fazem o que eles querem lá dentro. Eu não chamo atenção para nada. Eu estou dizendo, é esse o problema, você já tem o desgaste de ser técnico e vai passar a ter mais desgaste? "Olha, você não pode fazer isso. Esse copo está no chão, não pode. " Eu não faço nada. Eles fazem o que eles querem lá, só não pode chegar depois de meia noite. Meia noite é o horário que tem para chegar, o que não é nada demais, porque o atleta tem que dormir, tem que treinar no dia seguinte. Afora isso, mais nada. O horário das refeições, o que eles querem fazer, botam o som do jeito que eles querem, na altura que eles querem, eu nunca falo nada.

Osmar Santos: Telê, o Sócrates deu esta semana uma declaração dizendo que você devia ser o técnico da Seleção. Você viveu tanto tempo com ele e ele não estaria dando uma declaração nesse sentido, não é? Quer dizer, você deixa o jogador muito livre, não é?

Telê Santana:
É claro, é livre, ele faz o que quer. O Sócrates mesmo, eu sei que ele gostava de tomar cerveja, não é proibido tomar. À
s vezes, até na concentração, depois de um jogo, tomar cerveja, dar uma liberdade, uma licença para sair, para poder tomar sua cerveja, o que quisesse fazer e tal. Então, não há esse problema de prisão coisa nenhuma. A cobrança é ali dentro do futebol, o que a gente pode e o que não pode fazer.

Osmar Santos:
Dentro do futebol, Telê, quem é o favorito para ganhar o Campeonato Brasileiro?

Telê Santana: Não tem, eu acho que as equipes que estão disputando em melhores condições, naturalmente, têm mais chance. O Botafogo está muito bem, o Vasco e o Santos também. Eles estão em melhores condições do que nós, do que o São Paulo, que está com um ponto somente, mas não se pode apontar agora um favorito.

Jorge
Escosteguy: Roberto Avallone, por favor.

Roberto Avallone: Telê, voltando a sua vida pessoal, ontem você dizia, no Mesa Redonda [programa de futebol da TV Gazeta], que você é cricri mesmo, que você é pão-duro mesmo e que iria explicar porque é pão-duro. Disse que você veio de uma família humilde, com 9 irmãos, que depois que encerrou a carreira teve que abrir uma sorveteria para sobreviver, complementando suas economias.

Osmar Santos: E não vem daí a fama de pé-frio, não?

Roberto Avallone:
Agora, você é visto constantemente no CT do São Paulo, 6h30 da manhã, cortando a grama, tirando a grama. Isso não é viver para você? Porque você disse ao longo dessa entrevista que você não queria mais ir para a Seleção, que quer viver, e eu queria saber o que é viver para o cidadão Telê Santana da Silva? O que é viver, o que é isso para você?

Telê Santana:
Viver, para mim, é estar ao lado da família. Hoje, os meus netos crescendo, os meus filhos cresceram, e eu concentrado. Eu concentrava sábado, concentrava quinta-feira para jogar domingo. Então, os meus filhos cresceram e eu quase não vi. Agora, os netos estão crescendo e eu não estou vendo. Eu gosto de viajar de carro, adoro dirigir na estrada, eu até digo brincando que nasci para ser caminhoneiro, de tanto que eu gosto de estrada, de estar na estrada dirigindo o carro, é uma beleza, eu adoro. Então, eu quero passear, viver um pouco e estar assim.

Roberto Avallone: Mas eu acho você quer cortar grama, quer treinar a Seleção Brasileira, quer ser campeão do mundo e quer levantar o caneco de Campeão do Mundo.

Telê Santana:
O campo, eu tenho um carinho todo especial, porque eu acho que o jogador, quando ele entra em um campo bom, é como se fosse um garoto recebendo um pirulito de tão satisfeito que ele fica de entrar em um campo bom. Eu quero isso, até porque eu gostava de jogar em campos bons.

Jorge
Escosteguy: Pirulito no seu tempo, não é, Telê, porque hoje é videogame. Um pirulito não deixa mais o garoto contente.

Telê Santana: Qualquer brinquedo, como se fosse um brinquedo que ele gosta. Então, o campo tem que ser bem gramado, as bolas têm que ser boas. Eu sou exigente nessas coisas e cobro. Isso te dá também mais condições de cobrar dos jogadores: "O campo é bom, a bola é boa, você que está errando. Se está batendo na canela sua, é porque você que está errando." Então, isso é o que eu gosto ver: o campo bem gramado. Eu vou lá, se tem uma erva qualquer eu tiro, se tem um buraco eu chamo o funcionário para olhar. É um interesse que eu tenho por tudo. Acho que um técnico não pode se limitar simplesmente a entrar no campo, treinar o time, tomar um banho, sair e ir embora. Não pode ser assim.

Jorge
Escosteguy: Telê.

Sidney Mazzoni: Telê, você teria coragem de levar seus netos para um campo de futebol com essa barbaridade que as torcidas organizadas têm feito ultimamente?

Telê Santana: É, eu...

Sidney Mazzoni: Você recomenda que se leve uma criança de 8 anos para um campo de futebol com o estádio lotado, com o que as torcidas, com o que as milícias organizadas têm feito nos estádios?

Telê Santana: Todo mundo tem medo e realmente não é para deixar de ter medo, porque o torcedor vai como um vândalo para o campo às vezes. Ele quer briga, ele quer tudo e não pode ser assim. Por isso eu acho que se eu tivesse que ir para uma arquibancada, levando meus filhos, eu teria receio, porque realmente é perigoso.

Wilson Ferreira Junior: E em relação ao campo, você é até um pouco ciumento no campo do São Paulo. Você briga com os repórteres para que eles procurem evitar ao máximo pisar no campo do CT. Eu, na arquibancada do Morumbi, na final contra o
Newell's Old Boys, quando aquela torcida invadiu o campo, falei: "Nossa, mas o Telê vai ficar uma fera." O que valeu mais: a alegria de ter sido campeão – e aí vale tudo, o São Paulo pode jogar no pasto, como jogou contra o Vasco, aqui no Morumbi, o campo estava todo cheio de buraco– ou você chegou a pensar diferente?

Telê Santana: Não, ali valia tudo. Um dia antes, o senhor que toma conta do campo me perguntou: "O que você acha? Amanhã, se nós ganharmos, devo abrir o estádio para todo mundo entrar?" E eu disse: "É claro que tem que abrir. É uma festa que tem de ser feita, porque é um título inédito para o São Paulo." Então, tem que abrir, independentemente se vai estragar campo, se não vai, mas aquele é um momento que tem que abrir para a torcida extravasar seu desejo, a sua vontade, a sua alegria.

Wilson Ferreira Junior: É parte daquela história: "– Para a torcida tudo e para a imprensa parte"?

Telê Santana:
Para imprensa parte.

Jorge
Escosteguy: Telê, você já disse que a Seleção nunca mais, que está cansado etc. Ligaram 2 telespectadores, Silvano Amate, de São Paulo, e o Adelino Faria, de São José dos Campos. Eu vou fazer a pergunta do Silvano, porque as 2 são praticamente as mesmas. Ele disse: "O senhor aceitaria um desafio maior ainda, que é dirigir o Corinthians?"

Telê Santana:
Eu acho que não é desafio mais. Qualquer time é um desafio. Quando eu cheguei no São Paulo, já disse, em outubro, o São Paulo estava na segunda divisão do Campeonato Paulista, com medo de cair. No Campeonato Brasileiro com medo de cair para a segunda divisão, porque já estava em andamento o campeonato. É um desafio como outro qualquer, não é? Eu cheguei e, felizmente, o time subiu, cresceu e nós ainda fomos disputar o título com o Corinthians. Então, eu acho que o Corinthians é uma grande equipe, assim como o Palmeiras, como o São Paulo. É um grande clube, um grande time, uma grande torcida e poderia ter acontecido ao contrário. Ao invés do São Paulo me chamar, o Corinthians poderia ter me contratado, não haveria problema nenhum. Outro desafio também foi o Palmeiras.

Jorge
Escosteguy: Para você, seria indiferente, de repente, ser campeão pelo São Paulo, na Taça Libertadores, ou pelo Corinthians ou pelo Palmeiras?

Telê Santana:
Não, eu confesso que eu me fecho muito quando eu estou em uma equipe, seja qual for. Eu posso dizer que eu, quando fui para o Atlético Mineiro, por exemplo, eu detestava o Atlético. O detestava que eu digo é como torcedor. Quando eu era menino eu detestava o Atlético e passei a gostar do Atlético. Hoje eu gosto do Atlético, fui muito bem recebido pela torcida, por todos. Então, no momento em que eu entro em um clube, eu entro com tudo. É o que eu estou fazendo, o que eu procuro fazer no São Paulo. E eu procuraria fazer no Corinthians, como procurei fazer no Palmeiras e procuro fazer em tudo, dar tudo o que eu posso.

Roberto Avallone:
Quem é que te derrubou do Palmeiras, Telê?

Telê Santana:
Eu não sei quem me derrubou, honestamente, eu não sei. Eu não posso afirmar nada. Se eu soubesse de uma pessoa que tivesse feito alguma coisa por fontes limpas, eu diria. Não tenho problema com ninguém. Mas eu, honestamente, acho que foi uma passagem em que nada deu certo. Isso aconteceu também um pouco no São Paulo. Às vezes as minhas exigências não são entendidas, eu sou um pouco chato. Os que freqüentam sabem que às vezes eu dou um grito com um, mas é aquele momento, eu não sou mau. Eu sou humano demais, gosto de todos eles e eu quero o melhor para eles. Mas muitos não me entendem e fica: “Esse cara é chato, esse cara é isso e aquilo”. Poderiam até criar um clima ruim para mim, mas não que eu soubesse o  que diziam lá. “Ah, vamos tirar, vamos derrubar”, isso eu não vi não.

Jorge
Escosteguy: Telê, por falar em derrubar, eu gostaria de fazer a pergunta do Luiz Carlos Barzine, de São Paulo: "O que você acha dos 'cartolas' [dirigentes ou associados que financiam os times e que influem nas decisões de contratação de jogadores etc] do futebol hoje." E eu complementaria: você acha que a cartolagem evoluiu, está mais séria, mais consciente?

Telê Santana: É um pouco pejorativo esse nome, "cartola". É um dirigente. Tem os bons e os maus, como tem os bons e os maus técnicos, os bons e os maus jogadores, bons e maus jornalistas, tudo tem o bom e o mau. Tem aqueles que trabalham para o clube, tem aqueles que têm interesse em outras coisas além do clube, como política.

Jorge
Escosteguy: No geral, você diria que houve uma evolução? Eles são mais profissionais, são mais conscientes ou continua aquela coisinha política?

Telê Santana: Eu não posso falar muito dos outros, eu posso falar dos clubes que eu trabalhei. Por exemplo, no São Paulo, eu não posso me queixar. Eles me dão toda a força, me dão apoio. É verdade que nós estamos só ganhando também, mas poderia ser diferente, se tivéssemos derrotas. Mas, de qualquer maneira, eu não posso me queixar da diretoria do São Paulo. É um clube estruturado, que tem bons dirigentes. Eu não sei, o futebol tem determinadas coisas em que há um ciúme muito grande, tem dirigente que tem ciúme do outro. Tem muito isso no futebol, tem demais.

Roberto Bascchera:
Telê, o Corinthians foi citado aqui e você conhece o presidente, Vicente Mateus. Você acha que daria certo trabalhar com ele?

Telê Santana: É outra coisa, o que eu já fiz com o Vicente Mateus, com o senhor Vicente Mateus, foi conversar com ele esporadicamente. Eu não posso avaliar nem de longe o que ele é, o que ele não é, eu não posso.

Roberto Avallone: Ele lhe tirou o título?

Telê Santana: É, tirou, ele trabalhou bem, não é? Trabalhou bem.

Osmar Santos: Telê, todo o time tem um ponto forte e um ponto fraco. Quais são os pontos fracos do São Paulo?

Telê Santana: Olha, se tivesse eu não te diria também, não é? Mas não tem ponto fraco, o time do São Paulo, de um modo geral é bom. Cada um tem a sua função e todos procuram se desenvolver bem. Você pode dizer que tem um jogador de maior nome, que tem um jogador mais técnico, o que não significa um ponto fraco.

Osmar Santos: Eu vi aquele menino que você botou
para jogar no Maracanã. Ele já tinha jogado e depois teve problemas de saúde, o Vitor [Claudemir Vitor Marques]. Eu acho que ele tem tudo para ser um craque, ele sai jogando, batendo a bola. O que você fala dele?

Telê Santana: Tem tudo, depende dele. Ele até agora não tinha feito nada para ele mesmo, ele não tinha feito nada.

Osmar Santos: Mas domingo, no Maracanã, para quem joga no Maracanã pela primeira vez, ele foi brilhante.

Telê Santana: Ele pode estar me ouvindo e eu vou dizer. No ano passado, eu queria aproveitá-lo e ele tinha dor aqui na frente...

Osmar Santos: Aqui na frente aonde, Telê?

Telê Santana: Aqui na frente assim, aqui assim.

Osmar Santos: Na virilha?

Telê Santana: Na virilha, mais ou menos. E não pude aproveitá-lo, queria aproveitar no time e não pude aproveitar. Aí, chegou esse ano e começou a doer aqui atrás. Ele falava que as costas estavam doendo e ele nunca estava bom. Então, eu não via boa vontade, vontade de querer jogar, não é? O que eu fiz? Ele morava aqui, porque aqui é uma mordomia, morar aqui no CT é uma mordomia, porque tem tudo, conforto, tem tudo. Então, eu tirei ele daqui e mandei ele morar lá no Morumbi e ele sentiu. Agora ele voltou a querer, porque ele sentiu que lá seria difícil.

Osmar Santos: Ah, então é por isso que ele não estava no banco domingo?

Telê Santana: Na Libertadores, ele não estava inscrito.

Osmar Santos: Mas domingo eu achei que você iria tentar aproveitá-lo?

Telê Santana: Eu podia, mas ali eu preferi não, porque eu tinha o Marcos [Marcos Adriano Gonçalves], que também jogou no Rio e joga bem nas 2 laterais. A gente não pode ter um jogador para jogar em uma única posição, se você pode para 2 ou 3 posições. Por isso que ele ficou no banco, mas ele está cogitado para jogar ou para ficar no banco, porque agora ele botou alguma coisa na cabeça, sabe que pode.

Osmar Santos: Arrumou a cabeça?

Telê Santana: É, e eu já mandei voltar para o CT, já está morando lá outra vez.

Roberto Avallone: Já está de bem contigo.

Osmar Santos: Só mordomia?

Telê Santana: Ele já voltou, não é? Mas tem que fazer por merecer, ele tem que fazer por merecer.

Roberto Avallone: Escale a Seleção de todos os tempos.

Jorge
Escosteguy: Não, não tem.

Roberto Avallone: Comece pelo Castilho [Carlos José Castilho
(1927-1987), foi goleiro e também atuou como treinador], que você disse que é um dos jogadores que, indiscutivelmente, foram melhores?

Telê Santana: O Zizinho [Tomás Soares da Silva (1921-2001), jogador meio-campista], o Nilton Santos [lateral esquerdo].

Roberto Avallone:
Então, vamos começar.

Telê Santana: Não adianta, posição por posição, não vai adiantar. Eu vou te dizer os jogadores que teriam condições de jogar em um time. Outro dia eu disse para a revista Placar os jogadores. Se eu me lembrar agora dos 10 que eu disse, é...

Roberto Avallone: Você disse da década ou de todos os tempos.

Telê Santana: É, da década.

Roberto Avallone: Castilho.

Telê Santana: É, Castilho, o Nilton Santos, o Zizinho, não preciso falar do Pelé... Pelé, Garrincha e Rivelino [Roberto Rivelino, atacante]. Esses jogadores teriam que jogar em qualquer lugar.

Osmar Santos:
Ademir de Meneses [
(1922-1996), atacante].

Telê Santana: Ademir, o Ademir foi um grande jogador.

Osmar Santos: O Telê Santana está incluído?

Telê Santana: Não, eu não. Eu fui um bom jogador, mas não fui um craque. Eu fui um bom jogador, muito útil para o time.

Osmar Santos: Qual é a Seleção atual sua?

Telê Santana:
Ai, essa é que é a pior ainda. Essa que é pior. Já havia uma bronca entre os técnicos, quando era técnico da Seleção...

Osmar Santos:
Quando você dirigia, você não gostava?

Telê Santana: ... falavam que devia convocar fulano, beltrano. Não tem nada que falar, nem eu falo, não tem nada que falar. É o técnico que sabe.

Osmar Santos: Mas você tem um time seu, que você gostaria de ver?

Telê Santana: Não, eu nem penso nisso, porque não é problema meu. Eu não penso mais nisso.

Osmar Santos: Você viu, por exemplo, a Seleção jogando na Inglaterra?

Telê Santana:
Vi.

Osmar Santos:
Nos últimos jogos.

Telê Santana:
Jogou bem, jogou bem.

Sidney Mazzoni:
De repente te agradou?

Telê Santana:
Me agradou.

Jorge
Escosteguy: De repente, você está lembrando o Aristides Junqueira [o procurador da República já citado].

Telê Santana:
Hein?

Jorge
Escosteguy: De repente você está lembrando o Aristides Junqueira.

Telê Santana:
Ah, isso é diferente, isso é diferente. Eu não gostava de, quando eu era técnico, de...

Roberto Avallone:
De ouvir uma convocação?

Telê Santana:
Não, para mim, fulano tinha que ser convocado, sicrano não. Então, eu não gosto, para mim, não, eu nem dou entrevista. Quando há uma convocação, eles chegam para mim: "O que você acha da convocação?" E eu digo: "Isso é problema do Parreira. Ele é quem sabe quem vai convocar, quem ele vai aproveitar e como vai aproveitar." Não sou eu que vou falar: olha, tem que levar fulano porque joga melhor ou porque vai jogar melhor assim. Às vezes, não serve para ele.

Sidney Mazzoni: Você considera o Neto um craque?

Telê Santana: O Neto é um jogador de grandes qualidades. É um jogador de grandes qualidades.

Roberto Avallone:
Tem que jogar na Seleção?

Sidney Mazzoni: Você não vai ser o técnico desta Seleção, mas se você fosse, você chamava o Neto?

Telê Santana:
Se ele aumentasse as suas qualidades, sim.

Jorge
Escosteguy: O que falta a ele?

Sidney Mazzoni: O que falta, então?

Telê Santana:
É aquilo que eu falei agora Há pouco. Um jogador hoje não pode jogar parado. Ele não pode ficar dependendo do cara tomar a bola e entregar para ele. Ele tem que participar de tudo. Então, o Neto é um grande jogador com a bola nos pés. Ele chuta, ele passa bem e tal, mas isso falta a ele. Ele precisa entender isso que o Sócrates entendeu, que o Raí entendeu, que passaram a jogar dessa forma.

Osmar Santos:
E quanto ao Valdeir [Bispo do Santos], do Botafogo, você acha um jogador que pode virar craque?

Telê Santana: É muito bom.

Osmar Santos:
Pode jogar na Seleção tranqüilo?

Telê Santana:
Pode, ele é um jogador rápido.

Wilson Ferreira Junior:
E o Palhinha [Jorge Ferreira da Silva, jogou pelo São Paulo, tendo Telê como técnico], Telê, e o Palhinha?    

Osmar Santos: E o Edmundo [Alves de Souza Neto, que inicou carreira no Vasco e defendeu a Seleção Brasileira], o centro-avante do Vasco, jogou domingo, também pode pintar na Seleção?

Telê Santana: O Edmundo não é bem um centro-avante, ele joga mais como ponta-direita.

Osmar Santos: Mas é um bom jogador de Seleção?

Telê Santana:
Ele está começando agora.

Osmar Santos: Ainda é jovem?

Telê Santana:
Eu acho um bom jogador.

Roberto Avallone:
E o Valdir pode escalar?

Telê Santana:
Eu acho um bom jogador, mas ele está começando agora [ainda comentando sobre Edmundo].

Jorge
Escosteguy: Telê, o Jorge Luis Garcia, de Belo Horizonte, Minas Gerais, telefonou perguntando o que você acha do projeto Zico [que originou a Lei nº 8672 de 1993, que regula normas e regras para a prática desportiva] de profissionalização dos clubes brasileiros?

Telê Santana: Eu acho que já não é nem o projeto Zico, pode ser até o projeto Zi...

Jorge
Escosteguy: Zo, Zu.

Telê Santana:
... porque tiraram a outra parte do projeto. Eles mudaram tanto o projeto e ainda não conseguiram passar o projeto. Então, eu acho que vai modificar pouca coisa do que está no momento.

Jorge
Escosteguy: Mas e o original, quer dizer, aquele que você...?

Telê Santana:
O original era bom, tinha muitas coisas boas.

Jorge
Escosteguy: Você acha que os clubes brasileiros devem se profissionalizar, devem virar empresas, por exemplo?

Telê Santana:
Tudo tende a caminhar para isso. Eu acho que vai caminhar para isso, porque todos os clubes são deficitários. Eles recebem menos do que gastam, todos eles. Alguns ficam devendo, outros fazem mágica, mas de qualquer maneira ninguém está em boa situação. O São Paulo, hoje, tem uma boa situação diante dos resultados que obteve,
está pagando gratificações, mas, mesmo assim, não dá para ganhar muito. Os outros clubes, as rendas são baixas, tendo compromisso mensal com os jogadores. Vai acabar partindo para empresa.

Jorge
Escosteguy: Mas partir para ser uma empresa é pior?

Telê Santana: Não.

Jorge
Escosteguy: Nenhum empresário quer ser deficitário. Se o futebol está dando prejuízo...

Telê Santana: Não, mas a empresa vai saber como administrar melhor isso.

Sidney Mazzoni:
Acaba o paternalismo, Telê?

Telê Santana:
Também, também acaba. Vão passar todos a empresas, pensando em lucros e vendo qual é a melhor maneira de contratar um jogador. Às vezes se contrata um jogador que só gasta dinheiro, não há retorno, e isso vai ser mais pensado. Hoje, eles contratam, por exemplo, um técnico, porque está lá, vamos dizer, no Maranhão e foi bem. Eles trazem, nem conhecem a pessoa, mas eles vão lá e trazem. Daqui a um mês devolvem o técnico, mandam embora e pagam um dinheirão, porque tem correção, tem multa. Então, isso é falta de profissionalismo. O empresário vai pensar 2 vezes, vai exigir mais, vai cobrar mais e, assim, terá que aparecer alguma coisa.

Luis Alberto Volpe:
Os jogadores ficaram satisfeitos com o prêmio da Libertadores, Telê ?

Telê Santana:
Eu acho que ficaram.

Luis Alberto Volpe:
Quanto foi?

Telê Santana: O São Paulo está pagando muito bem. Agora, existe uma coisa dentro do futebol que a gente podia avaliar da seguinte maneira: o jogador vai conversar com os dirigentes sobre uma premiação e estão pensando, por exemplo, em pedir mil dólares em um jogo, vamos dizer, mil dólares. Os diretores dizem: "Então, antes do jogador falar, nós vamos oferecer mil dólares por jogo." E os jogadores pensam: "Se estão oferecendo mil é porque pode pagar 2 mil. Vamos pedir 2." E fica nesse jogo. Às vezes não se chega a um acordo. Sempre há a vontade do jogador de ganhar mais, mas eu acho que, em relação ao que os outros estão pagando – estou vendo o Santos falar que dava 20 mil dólares para dividir para todos–, em comparação ao que outros estão fazendo, o São Paulo está pagando muito mais. Poxa, muito mais.

Roberto Avallone:
Só ainda não pagou os 100 mil dólares que você quer por mês e que um clube italiano já chegou no pedaço?

Telê Santana: Não, eu não quero 100 mil dólares, não.

Roberto Avallone:
Lá fora, no exterior?

Telê Santana: Ah, sim.

Jorge
Escosteguy: Você não quer ou ninguém ainda ofereceu?

Roberto Avallone: No exterior?

Telê Santana:
Eu não tenho condições de ganhar, o clube não tem condições de pagar, nem acho que mereço.

Jorge
Escosteguy: Bom, Telê, o nosso tempo está chegando ao fim. Infelizmente, aqui não tem prorrogação e eu vou ler aqui uma série de perguntas que eu recebi dos telespectadores e fazer uma última pergunta também de um telespectador. O Dino Capa, aqui de São Paulo, gostaria de parabenizá-lo pelo título, que realmente veio pelo seu trabalho etc. O Bruno Alexandre, de Jundiaí, diz que você é o melhor técnico do mundo.

Telê Santana: Obrigado.

Jorge
Escosteguy: André de Souza Palácio, de São Paulo: "Parabéns". Marco Antônio, de São Bernardo: "Telê, eu agradeço pelo futebol brasileiro e principalmente pelo São Paulo". Valter Lima, de São Paulo: "O senhor não é pé-frio, é o maior treinador do mundo, meus parabéns."

Telê Santana: Obrigado.

Jorge
Escosteguy: Gilberto Maluf, de São Paulo, gostaria de parabenizá-lo e João Jaime Silva, também de São Paulo, para não dizerem que são todos são-paulinos, diz: "Você é um exemplo de um homem profissional. Oxalá o Brasil tivesse 3 homens como você. Sou corintiano, mas acho que você é o melhor técnico que o mundo já viu."

Telê Santana:
Muito obrigado.

Jorge
Escosteguy: Diante de todas essas observações, eu lhe perguntaria, como a última do nosso programa, a pergunta do Luis Carlos, de Araçatuba: você se acha totalmente realizado no seu trabalho?

Telê Santana:
Olha, o dia em que uma pessoa se sentir realizada ela se aposenta. Acabou tudo para ela e não tem mais aspiração na vida. Eu não, eu quero sempre mais, eu quero alguma coisa a mais, o que eu puder alcançar, seja o que for. Eu gosto muito de jogar tênis, então, eu quero jogar tênis, quero ganhar de todo mundo no tênis se eu puder. Às vezes eu não posso, mas eu luto para querer. Então, nunca a gente está realizado. É preciso ter sempre a esperança de conseguir algo mais.

Jorge
Escosteguy: Como técnico de futebol, faltaria o que para você?

Telê Santana:
Falta tanta coisa.

Jorge
Escosteguy: Ou você já está realizado?

Telê Santana:
Não fui campeão de Interclubes, não fui campeão mundial pela Seleção, não fui... Falta muita coisa ainda.

Jorge Escosteguy:
Não foi, mas também não quer mais?

Telê Santana: Não.

Jorge Escosteguy:
Nós agradecemos a presença esta noite aqui no Roda Viva do técnico Telê Santana. Agradecemos também aos companheiros jornalistas e aos telespectadores, lembrando que as perguntas que não puderam ser feitas ao vivo serão entregues ao Telê após o programa. O Roda Viva fica por aqui e volta na próxima segunda-feira às 9h da noite. Até lá e uma boa semana a todos.

[Telê Santana da Silva morreu no dia 21 de abril de 2006, aos 74 anos, devido à múltipla falência dos órgãos, no hospital Felício Roxo, em Belo Horizonte]

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