Memória Roda Viva

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Carlos Saldanha

27/3/2006

Famoso por participar das animações Era do Gelo , o brasileiro fala de desenho e animação e ainda conta sobre os bastidores de um dos maiores sucessos de bilheteria de 2006

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Paulo Markun: Boa noite. Um dos maiores sucessos do cinema de computação gráfica também fez a fama de um carioca em Hollywood. Ele foi o primeiro brasileiro a dirigir um longa metragem de animação nos Estados Unidos e também a ser indicado a um Oscar de curta metragem, concorrendo com os estúdios Disney. Nosso convidado de hoje é Carlos Saldanha, co-diretor da Era do Gelo I. E ele está de volta agora como diretor da Era do Gelo II, lançamento mundial da Fox Filmes, anunciado para o próximo dia 31, inclusive aqui no Brasil. Aos 22 anos, em 1991, Carlos Saldanha deixou o Rio de Janeiro e foi para Nova Iorque. Tinha um curso de programador de computadores, era desenhista amador e achava que nos Estados Unidos poderia juntar as duas coisas e viver disso. O plano deu certo. Ele se tornou mestre em animação por computadores e nome forte da Blue Sky, empresa que transformou-se no braço digital da Fox Filmes.

[Comentarista]: Blue Sky era uma pequena produtora de Nova Iorque em 1993, quando Carlos Saldanha foi convidado pelo proprietário Chris Wedge para produzir animações. Wedge tinha sido professor de Saldanha na Escola de Artes Visuais de Nova Iorque, onde o desenhista carioca fez mestrado em animação por computação gráfica. Começaram com animações para agências de publicidade. E, em 1998, quando a Fox Filmes comprou a Blue Sky, passaram a desenvolver projetos para o cinema. A Era do Gelo foi o primeiro deles. O esquilo atrapalhado encontra uma noz, tenta esconder o alimento num buraco no gelo e provoca um desastre. A quebra da geleira que remete aos primórdios da história da Terra dá início a aventura de um mamute mau-humorado, um tigre astuto e uma preguiça tagarela, que encontram um bebê humano e se aventuram para devolver a criança aos pais. O filme foi dirigido por Chris Wedge. Carlos Saldanha, co-diretor, conduziu o trabalho de criação e animação dos personagens. A Era do Gelo recebeu indicação para o Oscar de melhor longa de animação em 2003. Não ganhou, mas ficou com a marca de uma das maiores bilheterias da história da Fox. Chris Wedge e Carlos Saldanha já tinham um Oscar de curta metragem de animação com o filme Bunny, de 1998. E o próprio Saldanha conseguiu outra indicação sem ganhar com o curta A nova aventura de Scrat, de 2003. Desde então passou a se dedicar à Era do Gelo II, que chega agora aos cinemas e tem a assinatura de Carlos Saldanha como diretor. O neurótico e divertido esquilinho Scrat, sempre à caça de uma noz, também abre o filme. Dessa vez, o mamute, a preguiça e o tigre precisam abandonar o lugar onde vivem com os outros animais. Pois tudo aquilo vai ser inundado pela grande geleira que está derretendo.

Paulo Markun: Para entrevistar Carlos Saldanha, nós convidamos Sérgio Martinelli, cineasta e produtor de animação; Luís Carlos Merten, crítico de cinema do jornal O Estado de S. Paulo; Maria Fernanda Vomero, editora de cinema da revista Bravo; José Márcio Nicolosi, diretor de animação; Álvaro de Moya, jornalista e escritor; Roberto Sadoviski, diretor de redação da revista Set; Hernani Heffner, professor de história de cinema na PUC do Rio e da Universidade Federal Fluminense, além de conservador chefe da Cinemateca do Museu de Arte Moderna, também do Rio. Também temos a participação do cartunista Paulo Caruso registrando em seus desenhos os momentos e os flagrantes do programa. Como é transmitido em rede nacional de tevê para todo o Brasil, e está sendo gravado, o Roda Viva desta noite não permite a participação do telespectador. Boa noite, Carlos.

Carlos Saldanha: Boa noite.

Paulo Markun: Eu queria saber o que um diretor de filme de animação faz. Porque o diretor de cinema, a gente tem uma noção. A gente, volta e meia, assiste a cenas de making-off. Então, fica o diretor lá, comanda os atores, define onde vai ficar a câmera, bota o olho na lente. Agora, o diretor de um cinema de animação faz o quê?

Carlos Saldanha: A mesma coisa. Só que a gente faz em tempos diferentes e em etapas diferentes. A gente trabalha com os atores. Primeiro, com gravação de voz, porque é diferente quando você manda um filme para outro país, que aqui é feita a dublagem do filme. Mas na versão original, em inglês, o processo começa com a gravação do ator. Ele lê o roteiro todo, eu trabalho com ele. Porque ele não tem um set de filmagem. Ele trabalha com o microfone, o roteiro e eu. E a gente vai conversando sobre o filme e ele vai dando atuação nas falas do roteiro. Essas falas são levadas de volta para o estúdio e são editadas. E os animadores, então, usam essas falas como a base para animação. Ele ouve o texto lido, pega a emoção, e a gente trabalha, e é um trabalho, como diretor de filme tradicional, como fala com o ator. Aí eu começo a falar com o animador e passar. É muita coisa de mímica. Eu faço muito atuação, eu mesmo para ele. Como eu quero que o rosto fique, como os olhos, o movimento do braço. Então, a gente conversa muito sobre movimentos, sobre animação e tal. E com relação à câmera, a diferença é que nós também temos um mundo virtual 3D. E nós trabalhamos com câmera, luz, com todas essas técnicas que é quase uma simulação do cinema. É uma coisa assim, a diferença é que eu não bato o olho no...

Paulo Markun: Nem tem cadeirinha de diretor.

Carlos Saldanha: Não, não. É tudo em pé, na mão, conversando, projetando, vendo, e no computador mexe a câmera para cá, faz um “dolly”, os termos, tudo é a mesma coisa de cinema, o mesmo processo.

Hernani Heffner: Carlos, como você se interessou por animação e quais eram as tuas referências em animação e em cinema em geral?

Carlos Saldanha: O meu interesse em animação começou um pouco tarde. Eu sempre gostei de animação, como telespectador eu sempre gostei. Eu, desde criança, eu gostava muito de ver filmes de animação. Eu gostava principalmente da Disney, os clássicos, e tudo, e gostava muito de tevê, como toda criança, só que na nossa época eu acho que a gente não tinha muito essa coisa. Hoje em dia, esses canais específicos só de animação, com todos os diferentes trabalhos de todos os lugares do mundo. Isso não, a gente era uma coisa, que era acostumado com Disney, acostumado com os filmes do Chuck Jones [(1912-2002) desenhista. Criador da turma Looney Tunes, entre estes Pernalonga, Patolino, etc e também da animação Tom &Jerry. Jones produziu e dirigiu, ao longo de sua vida, mais de 300 filmes, ganhando três Oscars como diretor. Em 1996 recebeu um Oscar pelo conjunto da obra] ou Pernalonga, aquela coisa assim. Então, eu cresci com isso. Eu gostava muito de desenhar, de pintar, e tal, e quando eu me formei na escola – aqui é o científico – quando eu me formei e fui para a faculdade, eu decidi fazer computação em vez de artes. Eu queria ter feito artes, mas eu era muito novo, eu tinha 16 anos quando eu fui para a faculdade, meus pais falaram: “você é muito novo para a faculdade de artes. Dá uma segurada aí, faz uma coisa, computação, você gosta de computador, tal”. E eu fiz. E depois trabalhei um tempo fazendo computação, programando, gostava muito, aí eu comecei a ver o negócio de televisão. Sempre gostei de ver essas coisas de computação gráfica, tecnologia, e tal. Aí eu falei: “olha, computação gráfica talvez seja o meu lado artístico”. Eu nunca tive treinamento de desenho. Então, não sei se eu desenho bem. Não sou que nem o [Paulo] Caruso que desenha assim rapidinho, bonitinho, não. Eu sofro um pouco mais. Mas eu gostava de trabalhar com arte. Então, foi aí que eu comecei a correr atrás de computação. Mas dessas coisas hoje em dia, eu me inspiro muito mais, eu estudo muito mais animação, gosto de ver filme, procuro ver movimento, tal. Eu ainda continuo sempre voltando para os clássicos, é impressionante. Pinóquio, Bambi os filmes assim dos anos 1930, 1940, da Disney, aquela coisa dos anos dourados da animação. Eu ainda gosto muito de assistir esse tipo de filme e ter como inspiração.

José Márcio Nicolosi: Vou fazer uma colocação para você, o animador 3D aposentou o lápis?

Carlos Saldanha: Não.

José Márcio Nicolosi: Qual a importância que você vê no bom desenho para a formação de um animador 3D?

Carlos Saldanha: Olha, eu tenho...

Paulo Markun: Desculpe. Eu acho conveniente a gente explicar o que é o animador 3D. Senão muita gente vai dizer: “não sei nem que tinha 1D!?” [risos]

Carlos Saldanha: É engraçado. Porque existe muito essa polêmica, 2D, 3D tradicional, manter o estilo... Na verdade, 3D é a mesma coisa. A gente mantém os estilos. Isto é, os princípios de animação são os mesmos. A gente trabalha em cima das técnicas que já foram criadas desde os anos 1930, por Disney. O jeito de pensar a animação é muito parecido com o 2D. A diferença é a técnica, a diferença é o equipamento que você usa. Mas a gente usa muito o desenho, porque o desenho é a coisa mais imediata. Você não precisa ligar o computador, você não precisa pegar no mouse. Você pegou um lápis, está o papel, eu tenho uma idéia de uma expressão, eu vou lá e desenho rapidinho a expressão. É o desenho na mão. O animador sempre tem um papel do lado. E a gente sempre trabalha, antes de mexer no computador, a gente senta em frente ao personagem, a gente tem a maquete do personagem tal. A gente fica horas desenhando o personagem, pegando poses. A gente faz o que a gente chama de “impression x” – que são as expressões, os fonemas. A gente faz tudo na mão.

Paulo Markun: Agora, só para esclarecer, 2D é tudo aquilo que é feito no papel?

Carlos Saldanha: No papel. O que a gente chama de 2D é o que você trabalha no papel, no acetato, é o que você faz. E o 3D é aquilo que você usa o mouse no computador.

Paulo Markun: Mas para isso tem que ter a tal maquete?

Carlos Saldanha: Não. A maquete é porque todo processo de computação gráfica começa com um processo tradicional. A gente começa com um roteiro primeiro, escrevendo o roteiro. Apesar de hoje em dia o pessoal, tudo bate no computador, mas é o processo tradicional. Tem a parte de, que a gente chama, na pré-produção, de inspiração. A gente faz pinturas, tem pinturas desse filme de imagem, que a gente chama, para pegar a inspiração, que são quadros. Você pode montar. E o cara faz com uma perfeição, que é uma obra de arte. Então, a gente trabalha muito nessa parte artística antes. Às vezes, por um ano, muito antes da produção começar. Então, esse negócio de computador é uma coisa fria, que você não... Muito ao contrário, a gente trabalha, só de storyboard para fazer as cenas são mais de mil quadros por cena, por seqüência, a gente desenha muito. Trabalho manual mesmo, desenhar, pintar, esculpir. A gente usa muito escultura de massa para poder pegar formato, olhar o 3D.

Luiz Carlos Merten: Carlos, você desenha muito, mas eu imagino que escreva também. Porque um bom roteiro - eu acho - é fundamental numa animação.

Carlos Saldanha: Com certeza.

Luiz Carlos Merten: Fala um pouco... Eu achei esse filme, esse segundo, melhor do que o Era do Gelo original. Esse eu achei mais dinâmico, mais divertido, bem mais legal realmente, menos sentimental, etc. Como chegamos a esse resultado aí?

Carlos Saldanha: É o roteiro. A base é aquele negócio. A gente fica assim: “qual o maior desafio?” O maior desafio é o roteiro. Porque não existe um bom filme se você não tem um bom roteiro. E o roteiro é uma coisa viva na animação, porque é diferente de filme. O filme, geralmente, o período de produção de um filme é três meses, você fica três meses fazendo o filme. Tem o roteiro, e é muito voltado ao roteiro. Nós também temos o roteiro, mas temos esse outro diferencial, que é na animação, você cria muito. Porque você fica muito tempo fazendo, você cria muitas cenas e situações fora do roteiro, que depois têm que ser incorporadas ao roteiro. E é feito um up-date do roteiro, porque a gente atualiza o roteiro sempre. Já no primeiro dia, começa com o roteiro, e o último dia, até o último dia, eles não me deixam mais tocar no mouse, não me deixam mudar uma fala. A gente está trabalhando no roteiro. Porque eu acho que é importante a gente sempre pensar na história, pensar nos personagens, porque é isso que acaba dando vida ao filme. Tecnologia é uma coisa secundária. É uma técnica que a gente escolheu para fazer o filme, é a técnica que eu conheço como diretor. E a técnica que eu consigo dirigir. Mas na verdade, a essência mesmo está ali no roteiro, nas falas. E isso é todo dia. Todo dia eu leio uma página de roteiro, eu leio, eu recebo as falas dos escritores, eu tenho que aprovar seqüências e cenas. É todo dia, a gente tem pilhas e pilhas de versões do filme, que se você lê o primeiro roteiro, não tem nada a ver com o filme mais. É uma evolução, um processo de evolução.

Luiz Carlos Merten: E, só para fechar, já que tu falastes inicialmente que os atores gravam as falas anteriormente. Eles ficam a tua disposição durante todo o período ou gravam no início, depois vão embora. Bye, bye, nunca mais?

Carlos Saldanha: A gente tem, pelo contrato deles, quando a gente assina o contrato, a gente tem um contrato mínimo de umas sete sessões. São sete sessões diárias o dia inteiro. A gente fica sete sessões, mas não necessariamente uma atrás da outra, porque o roteiro está sempre mudando. Então, a gente faz, a primeira passagem do roteiro é mais para o ator se familiarizar com a história, pegar a manha, me conhecer e a gente trabalhar junto, aquelas coisas todas. Então, geralmente, logo no início, a gente faz uma passada no roteiro inteiro para todo mundo. Aí a gente leva as vozes de volta, a gente faz uns testes, melhora. Eu faço a edição, a montagem, tudo. Aí, uns dois meses depois, três meses depois, a gente grava de novo.

Paulo Markun: Quer dizer que o começo de um longa de animação é um programa de rádio?

Carlos Saldanha: É, praticamente. Não, programa de rádio, a gente usa esse termo, a gente usa esse termo justamente numa coisa parecida como a gente está fazendo aqui. Eu dou, você é o Manny, você... a gente dá, o pessoal manda buscar, a gente junta um grupo e a gente lê o roteiro junto, cada um pega uma fala e a gente faz uma brincadeira.

Paulo Markun: Ainda bem que eu sou o Many... Você é a preguiça. Sérgio Martinelli.

[Risos]

Sérgio Martinelli: Retomando a questão do roteiro, vocês trabalham a partir do texto? Porque dá para ver claramente, especialmente na Era do Gelo II, que é genial, gostei muito, você vê que existe um trabalho muito elaborado da gag [fala, movimento ou situação inesperada e cômica visual]. Isso vem indicado no texto escrito ou vocês desenvolvem dentro do estúdio? Vocês vão lembrando? Quais são... Como é que as referências vão surgindo?

Carlos Saldanha: Depende. Algumas coisas acontecem no roteiro. Porque o escritor não é um animador, a gente contrata escritores de roteiros tradicionais e tudo, de cinema. E eles têm uma visão mais ou menos do que eles acham que pode ser o filme e eles mandam para mim. Aí eu olho a cena, essa seqüência vai ficar assim, vou fazer isso, vou fazer aquilo, tal. Aí eles reescrevem. Mas na hora, depois que a cena tem a estrutura que eu quero, essa cena vai para o time de história. É um grupo mais ou menos de umas dez pessoas, que são desenhistas, que fazem storyboard. E cada um tem uma cena. Aí eles começam a fazer os desenhos nos quadros. É assim que começa o processo. A gente tem uma parede só de desenho e a gente vai botando, quadro a quadro, cada seqüência do filme, cada momento. Aí que as gags começam a surgir. A gente começa: a gente fica, tropeça, cai de boca no chão, tal, aquela coisa.

Sérgio Martinelli: Vocês se divertem mais do que...

Carlos Saldanha: A gente se diverte muito.

Sérgio Martinelli: Porque fica todo mundo imitando ali.

Carlos Saldanha: A gente faz toda essa sessão. E, às vezes, a gente entra numa, a gente esquece um pouquinho do roteiro e começa a viajar nos personagens, criar um monte de coisa, joga muita coisa fora, bota muita coisa. Então, é um trabalho assim que você não tem, você não pode ter o ego muito envolvido na coisa. Você não pode ter o escritor perto porque a gente destrói. Mas é muito dinâmico, isso que é a parte mais gostosa. Porque é um processo muito dinâmico. Você está numa sala assim, parecida com essa, com um painel cheio de desenho, e você está contando a história, você está mudando, você está criando diálogo, você está mexendo, tal. Aí você olha uma seqüência e você vê: “ficou legal, não é?” Aí você pega o escritor: é isso que foi transformada a sua seqüência. Aí ele olha, dá essa sugestão: “essa fala pode ser um pouco melhor, eu posso melhorar aqui, eu posso criar um momento aqui”.  Aí, ele reescreve o roteiro e a gente vai trabalhando junto.

Álvaro de Moya: Carlos, antes de mais nada meus parabéns para você.

Carlos Saldanha: Muito obrigado.

Álvaro de Moya: Por ter demonstrado que o animador brasileiro tem nível internacional.

Carlos Saldanha: Obrigado.

Álvaro de Moya: Agora a pergunta. Você, trabalhando numa corporação americana, você teria possibilidade também de fazer um projeto pessoal de desenho animado aqui no Brasil com a TV Cultura ou com o Canal Rá-tim-bum, por exemplo?

Carlos Saldanha: Esse é um caso, é difícil, porque... Eu acho que posso fazer, posso conversar. Sempre tem, o diálogo é sempre aberto, de projetos, de idéias, parcerias. Essa coisa, está sempre aberto.

Álvaro de Moya: Mas você não é exclusivo?

Carlos Saldanha: No momento eu sou exclusivo, eu tenho um contrato. Eu tenho um contrato de três filmes, eu faço o primeiro filme, ele renova para dois filmes, e quando eu faço o segundo eles já querem renovar por mais três. É uma coisa, eles ficam sempre te pegando. Então, na verdade, depende do momento. Nada impede, se é um projeto que eles têm interesse, se é uma coisa que eles têm interesse, eles conversam. A gente tem todo o diálogo. Eu nunca vou fazer um filme que eu não queira fazer, apesar de ter um contrato. Eles não querem que um diretor entre para um filme não querendo fazer o filme.

Paulo Markun: A Blue Sky já não é mais uma produtora independente?

Carlos Saldanha: Não, nós somos Fox, essa que é a diferença. Nós fomos comprados pela Fox em 1998. Então, tudo que fazemos dentro da Blue Sky, na verdade, pertence à Fox.

Paulo Markun: Você chegou a ser sócio da Blue Sky?

Carlos Saldanha: Na época, quando a gente entrou, a Fox já tinha sido formada por sete membros, e eu tinha participação acionária, vamos dizer assim. Mas a companhia era muito pequena.

Paulo Markun: Vamos acompanhar a pergunta feita pelo crítico de cinema Sérgio Rizzo, vamos ver.

[VT de Sérgio Rizzo]: Oi Carlos, o Andrew Adamson, diretor de Shereck (2001) e Shereck II (2005), recentemente, teve uma primeira experiência com longa metragem live action, com atores e ação ao vivo, que foi As crônicas de Nárnia (2005), sucesso de bilheteria. Ele está dirigindo já o segundo episódio. Eu gostaria que você avaliasse esse trabalho em relação ao Shereck, e que contasse para a gente se você planeja, num futuro próximo, se exercitar também num longa metragem como esse, uma super produção, envolvendo atores, envolvendo ação ao vivo.

Carlos Saldanha: Bem, eu sou um cara muito curioso. Então, eu procuro sempre ter novidade, coisas novas para fazer. E eu sempre tive curiosidade com live action, mas eu não sei se eu tenho capacidade. É o tipo da coisa que eu não é o meu mundo. O meu mundo é da animação, desenho, computador, aquela coisa, trabalhar com os animadores. Ficar num set de filmagem assim, de verdade mesmo, eu não sei.

Paulo Markun: Nem é a sua fantasia?

Carlos Saldanha: Não. Eu até gostaria de tentar, mas ainda, no momento, eu não consegui pensar. E no caso do Andrew, foi uma transição espetacular para ele, não é? Uma coisa que ele fez super bem, o Nárnia. Um filme que tem muita animação, essa que é outra coisa. O filme que ele fez é um filme de fantasia também, apesar de ser live action tem muitas cenas de efeito especial, animação. Então, eu acho que ele conseguiu juntar a coisa de live action com animação, eu achei interessante. Um longa metragem de animação precisa de, pelo menos três anos para ser produzido. A Era do Gelo consumiu um ano, só na fase de definição do roteiro e precisou de mais dois para uma equipe de duzentos profissionais desenvolver personagens, animar e concluir o filme. É a fase mais difícil e mais demorada do trabalho. Tudo precisa ser desenhado antes, cada personagem é desenvolvido primeiro no papel. Depois, cada um precisa ser esculpido com todos os seus detalhes. É das maquetes que são tiradas as referências em três dimensões para o trabalho no computador. Quando a animação fica pronta começa a sonorização. Música, efeitos sonoros e um cuidadoso trabalho de dublagem, em geral feito por atores conhecidos, são eles que dão voz, graça e vida a animação feita no computador.

Paulo Markun: Carlos, não dá para não rir com esses dois gambás aí do filme a Era do Gelo II. A questão é a seguinte, que espaço existe hoje, isso que a gente viu é o resultado de uma gigantesca indústria, gigantesca, talvez até num certo sentido maior do que a do cinema convencional. Está certo ou é “pau a pau”?

Carlos Saldanha: Proporcionalmente talvez, pelo número de produções.

Paulo Markun: Quer dizer, se você fosse fazer cada filme, tivesse a produção de animação no volume que a gente tem em cinema de verdade seria muito mais caro.

Carlos Saldanha: É, porque todos os filmes de animação, na média, gira em torno de 70 milhões, 80, 100 milhões. Se você pegar todos os filmes de animação, o orçamento, porque filme tradicional de live action, você tem filmes de 16 milhões, de 10 milhões, mas também têm filmes de 200 milhões. Mas é mais...

Paulo Markun: Tem um espaço maior. A pergunta é: que espaço tem as pequenas empresas de animação que estão começando num ramo tão milhardário?

Carlos Saldanha: É um pouco mais complicado, porque existe, é um processo caro, é um processo que leva vários anos. E tem ainda o problema da distribuição. Porque você faz um projeto, você tem que se aliar a um estúdio para fazer a distribuição e ser uma coisa mais global. Esse ano vai ser o primeiro ano que a gente vai começar a ver filmes de baixo orçamento. São filmes que custam 16, 20 milhões, que vão começar a... O mercado esse ano vai ter, eu acho, dez filmes de animação. É um recorde, nunca tivemos tantos filmes de animação em computação gráfica num ano só. Então, e geralmente alguns desses filmes são fora. São feitos, para ter esse custo, você não faz nos Estados Unidos um filme assim. Você tem que fazer na Coréia ou na França. Tem uns que são feitos no Japão. Então, depende muito do projeto. Mas no geral, é um mercado astronômico, é uma coisa assim incrível.

Maria Fernanda Vomero: Queria aproveitar essa pergunta para saber: você acabou de falar que você lida com projetos da ordem de 70 milhões, 60 milhões, enfim, quanto custa mais ou menos o longa de animação? Até onde vai sua liberdade de criação com projetos dessa ordem? Porque também, depois que a animação vai para as telas ganha vida própria, tem uma rede de licenciamento de produtos com os personagens, tudo mais. Isso provavelmente influencia na criação. Eu queria que você falasse um pouquinho a respeito disso.

Carlos Saldanha: É aquele negócio. Quando eu entrei nesse negócio, eu sabia o seguinte, eu não ia fazer um projeto 100% meu. O meu único projeto 100% foi o que eu fiz na faculdade, sozinho, que eu modulei, desenhei, fiz tudo. E é um projeto que até hoje eu guardo, assim no cofre, porque eu sabia que naquele momento, o pessoal falava: você faz o seu projeto na faculdade, porque depois da faculdade vai ser difícil você chegar e ter tempo para fazer uma coisa só sua.

Maria Fernanda Vomero: Te aconselharam bem.

Carlos Saldanha: E foi o que eu fiz. Na faculdade eu falei: não, esse é meu filme, esse eu vou fazer sozinho. Daí para frente, você tem que deixar um pouco o ego na porta e entrar com a cabeça aberta. Porque, o que acontece? É um trabalho de contribuição, é uma equipe de trezentas pessoas, você tem um estúdio com dez executivos, um produtor, um produtor executivo. Então, todo mundo trabalha numa parte criativa do filme. Todo mundo dá sua opinião. Eu já entrei nesse processo falando: “tudo bem, vamos lá, eu boto as idéias na mesa, vocês me dão a sua opinião, falam o que você tem. Eu levo as idéias para casa e lá eu pego o que funciona, depois eu te mostro de novo”. Então, eu acho assim, a minha política foi, quanto mais eu divido o meu pensamento com eles mais eles estão abertos a dividir o deles comigo e aceitar a minha idéia. Porque, às vezes, em alguns projetos a pessoa protege muito, esse é meu, vai ser assim. Fica meses trabalhando naquela idéia, aí mostra e ninguém gosta. Pô, o cara perdeu dois meses. Então, eu prefiro explicar o que eu estou querendo fazer. Demonstro, falo: “eu estou fazendo isso, mas eu quero que chegue a esse nível”. Explico o que eu quero fazer. Então, existe muito esse vaivém. E chega a um ponto do filme em que eles não perturbam mais. Até o momento que eu tenho todo o filme no rolo, que eu edito a parte de storyboard, aí eu vou para Los Angeles, tem aquela coisa, eu sento na salinha com todo mundo, a gente projeta o filme. Aí a gente tem uma reunião no final.

Roberto Sadovski: Me diz uma coisa, esse processo, esse trabalho com o estúdio, com a Fox, a Era do Gelo é um produto corporativo, no final das contas?

Carlos Saldanha: Claro.

Roberto Sadovski: Sei lá, Pernalonga, Mickey, tal, é um produto que dá muita grana para eles. Chega a ser frustrante em alguma hora, você tinha alguma idéia que você queria colocar no filme, você acaba tendo que cortar. Ou eles falam: “não, a gente queria que esse personagem não seguisse esse caminho, queria que seguisse esse outro caminho”. Em algum ponto do processo você fica frustrado por não conseguir colocar aquela idéia que você, como animador, sabe que talvez seja a melhor escolha?

Carlos Saldanha: Sempre existe um pouco desse lado da frustração. Mas tudo é conversa. Às vezes o que eu faço é o seguinte, apesar deles falarem: “não, eu acho que tem que ser dessa maneira”. Eu falo: “não, eu acho que tem que ser dessa maneira”. Aí a gente fica naquele impasse. Daí eu falo o seguinte: “tudo bem, eu vou fazer da sua maneira e eu vou te mostrar. Aí você dá a sua opinião em cima disso e tal”. Então, é uma negociação. Durante esse processo eu acho que eu tirei um mestrado de psicologia, porque você trabalha muito com as pessoas. Eu sou o único cara no meio, é uma "roda viva" com trezentas pessoas ao meu redor, e todo mundo criativo. Então, eu sou bombardeado o dia inteiro. O cara do cafezinho passa por mim: “aquele personagem, posso fazer uma voz? Posso?” E aconteceu. Eu dei a voz para o cara mesmo.

Roberto Sadovski: Mas o estúdio tem alguma interferência? Tipo, os executivos, os caras que estão assinando o cheque, eles têm algum?

Carlos Saldanha: Têm. Na verdade...

Roberto Sadovski: Até que ponto eles têm esse...?

Carlos Saldanha: Eles também têm um limite, é o limite criativo, eles dão sugestões. Eles falam assim, “eu estou dando essa sugestão pela minha experiência, eu acho que esse tipo de idéia talvez não funcione para essa faixa etária, talvez não funcione para isso, eu acho que é uma história muito...” Eles dão a sugestão no lado global, não é? Mas eu tenho a liberdade de não executar, se eu quiser. É uma questão política. Então, muitas das vezes não custa chegar e tentar a idéia do cara, porque algumas dessas idéias, realmente...

Maria Fernanda Vomero: Só para falar, qual o personagem que ganhou a voz do moço do cafezinho?

Carlos Saldanha: Não foi o moço do cafezinho. Na verdade, ele é o assistente da parte de... ai, meu Deus, qual é o cargo? Ele faz a parte de computador, você compra o computador, o cara vai lá, instala o software, manutenção do hardware, é um cara super “gente boa”. Então, ele é apaixonado pelo Brasil. O tempo todo: “Carlos, eu vou para o Brasil com você”. Eu compro guaraná para ele, tal. Então, durante o processo, a gente não tem os atores e a pega o pessoal da Blue Sky mesmo. E eles fazem a voz temporária, e a gente monta o filme com as vozes temporárias de todo mundo. Mas o que acontece é que você acaba se apaixonando pela voz de alguém, entendeu? Você acaba... Poxa, essa voz ficou legal no filme, eu acho que não precisa de um ator, bota o cara mesmo. E ele faz uma fala, que em inglês é um jogo de palavras, porque é quase, não um palavrão, mas é quase que uma palavra que você....Meio chula que você fala. Mas como a gente está olhando para uma represa, é a mesma palavra, escreve-se diferente, mas é a mesma palavra. Então, a gente brincou. Então, ele faz essa parte. Toda vez que passa no filme, ele fica, ele está se achando, é muito legal, é muito divertido isso.

Sérgio Martinelli: Carlos, só uma coisa, retomando a questão dos orçamentos. A gente vê que você tem filmes como Viagem de Chihiro (2001), Castelo encantado (2003), que acabam ganhando Oscar. São orçamentos muito menores. E você tem, no caso lá, a pressão de um grande estúdio e a pressão de um orçamento gigantesco. E parece que cada vez inflaciona mais, os filmes saltam de valores, é 70, 100 milhões de dólares, e obviamente isso tem que ter uma resposta na outra ponta.

Carlos Saldanha: Na bilheteria.

Sérgio Martinelli: Na bilheteria. A Blue Sky começou pequeninha e agora tem que lidar com esse tipo de pressão de orçamento. Como é que vocês se prepararam para isso?

Carlos Saldanha: É uma coisa, eu nem paro muito para pensar, porque é uma coisa que é parte do negócio. A gente sabe que fazer um filme não é coisa que você vai para casa e faz relaxado. É uma coisa que você tem um cronograma diário super puxado. Por três anos você sabe que está escravo desse projeto, e você sabe que a responsabilidade é muito grande. Agora, a gente não pára para pensar muito nessa responsabilidade, porque a gente entrou na água para se molhar, a gente quis fazer o filme, e vem com...

Sérgio Martinelli: Mas como live action você tem data de entrega, não tem opção.

Carlos Saldanha: Mas na animação também. É tudo...

Sérgio Martinelli: O estúdio já te marca, provavelmente falando: lançamos?

Carlos Saldanha: Nós sabemos que vamos lançar em março desde dois anos atrás.

Sérgio Martinelli: Você tem que estar com o filme pronto?

Carlos Saldanha: Tem que estar com o filme pronto. E esse filme, na verdade, mais ainda. Porque nós fizemos quase que na metade do tempo, porque eles queriam lançar em março, no dia 31 de março, queriam que fosse a data do lançamento. E essa conversa, eu tive uma conversa muito séria com os presidentes da Fox, de animação e de cinema há um ano atrás. Há um ano atrás, nesse mesmo momento aqui eu estava sentado numa mesa em Los Angeles, conversando com todos os meus chefes, e eles falando: “a gente quer lançar o filme no dia 31 de março”.

Paulo Markun: Porque a data? Você sabe?

Carlos Saldanha: Porque é a data que nós temos a tradição de lançar filmes. Lançamos Robôs também, foi muito sucesso. E a gente queria manter a tradição. Além de que, esse ano, como eu falei, tem nove filmes de animação. A gente não queria ser... O que acontece? Você começa a fechar as datas de lançamentos dois, três anos antes, então, você garante o seu espaço. E se eu lançar o meu filme no meio eu posso dar o azar de cair com um outro filme que compete. Então, é uma coisa muito complicada. Essa parte assim que eles trabalham com muita antecedência, e tem os estúdios, cada um tem o seu, que ninguém cria conflito com ninguém, para não criar aquela coisa. De vez em quando a Dreamworks com a Disney entram em briga ali. Mas a gente prefere criar uma coisa assim: ok, março é meu, janeiro é teu.

Paulo Markun: O fato do filme ter alguns personagens que são da fauna brasileira tem alguma coisa a ver com Carlos Saldanha? Tem anta, tem tamanduá, não é isso?

Carlos Saldanha: É, tudo vem da mesma. A gente pegou estudos de animais da época da Era do Gelo.

Paulo Markun: Tem a ver com a época e não com o fato de ser?

Carlos Saldanha: Não com o fato. Tem uns que a gente tomou um monte de liberdade. Um a gente até fez um pouco mais parecido com o tamanduá bandeira, um que é marrom com a faixa, mas é um tamanduá, é uma versão da Era do Gelo, o tamanduá, mas é baseado em desenhos históricos, de estudos.

Luiz Carlos Merten: Carlos, você trabalha para mercado “milhardário”, como já falastes, mas o animador, no caso, é uma espécie de celebridade anônima, não é? Porque ele não tem a projeção de um diretor live action. E ele ganha dinheiro como diretor live action, por exemplo? Tu, com esse sucesso todo, está fazendo um dinheirão nos Estados Unidos?

Carlos Saldanha: Não. Não, é diferente. Não vou falar que eu tenho que lavar prato para poder pagar as contas, porque animação dá dinheiro. Não, hoje em dia a animação é um mercado, um bom mercado de trabalho, não só para a pessoa que está começando, mas para a pessoa que já está há mais tempo. Então é um mercado que... Mas isso, uma coisa relativamente recente, isso é uma coisa de dez anos para cá. Porque antes, o animador era visto como um cara razoável para fazer o desenho, apesar da Disney ter uma tradição de pagar muito bem os tops dos animadores. Mas o mercado começou baixo, começou normal, tal. E hoje em dia o mercado inflacionou, o mercado se especializou, e um animador está começando ganha um salário decente. E os grandes animadores das companhias têm um salário maior que o topo da cadeia alimentar ali do pessoal. Mas, profissionalmente, financeiramente, é uma carreira promissora e uma carreira boa. Mas não é uma equivalente à live action, porque existe toda uma parte de imagem, de participação de lucros, tudo, que apesar de nós termos parte disso, quando você faz filme de live action é muito mais, como a gente chama, é muito mais bem elaborado e favorece muito mais os atores e os diretores do que animação. Infelizmente. Um dia, um dia a gente vai mudar isso. Já temos a nossa, como é que diz, a nossa própria categoria. O Oscar agora né... Quem sabe a gente não consegue brigar?

Roberto Sadovski: Me diz uma coisa. Você em algum momento se torna refém da tecnologia? Ou seja, você tem o seu roteiro, tem alguma coisa que vocês escrevem e fala: “hum, a gente não chegou nesse ponto ainda de poder animar água desse tipo ou fogo desse tipo, ou pêlo desse tipo?” Porque o Richard adiou o lançamento do filme novo dele já três vezes. Eu acho, por causa disso, porque tem coisas que ele quer fazer que a tecnologia, simplesmente, não chegou ainda.

Carlos Saldanha: Existem limites. Eu acho que, aquele negócio, existe e não existem limites. Eu acho que você pode fazer uma coisa perfeita. Agora, vai demorar mais tempo e não vai ter dinheiro, tem que botar dinheiro. Então, às vezes, você não tem esse tempo, não tem o dinheiro. Essa é a limitação, você não... Poder fazer, pode. É que nem quando você faz uma obra em casa... Eu acabei de fazer obra na minha casa, eu chego para o cara – mestre de obras – e falo assim: “dá para quebrar essa parede?” “Dá, dá. Agora, que vai demorar um tempo e vai custar caro, vai?” Aí você fala: “espera aí, cheguei ao meu limite”.

Roberto Sadovski: Mas você tem o apoio do estúdio de falar: “essa seqüência aqui vai ficar muito bacana se a gente fizer, e ela vai custar um pouquinho nada mais”. Aí eles dão uma olhada, tal, beleza, pode tocar?

Carlos Saldanha: Tem muita. Quando eles te falam, às vezes quando eles dão essa sugestão para mim, o conselho. Eles chegam para mim e falam: “olha, se você tiver que passar mais tempo fazendo uma cena, trabalha mais nessa seqüência, que eu acho que é uma seqüência legal, uma seqüência que tem mais visibilidade”. Então, não se importa muito com essa cena aqui, faz legal, mas essa aqui é uma cena só de fala, mas essa cena aqui dá um gás maior. Na verdade, eles não têm o controle. Eles não sabem quanto a gente está gastando. Eles sabem que a gente tem que entregar o filme nessa data. Então, se você chegou nesse cronograma, tudo bem, eles não te perturbam. Agora, a produção interna, o meu produtor, o produtor, são os caras que ficam no meu ouvido todo dia: “olha, você tem que entregar trinta nesse dia, cadê o animador? Cadê a cena?” É o dia inteiro o cara falando no meu ouvido, falando que tem que estar pronto e tudo. E tem limites. No filme, por exemplo, tem muita cena com água, água é um desafio em computação gráfica, porque é uma coisa cara, uma coisa que demora tempo, você tem que fazer simulações. Às vezes, por exemplo, tem a hora que a represa quebra, e tem aquela água. Só para você ver, o primeiro teste da simulação daquela água, eu acho que eu fiquei uma semana esperando. Então demora. Então, se eu fizer, eu não gostei desse cantinho aqui. Fica todo mundo puxando o cabelo desesperado. Não dá tempo, não dá tempo. Porque tem um limite técnico, tem um limite de computadores e tal. Agora, tudo é possível, tempo e dinheiro.

Hernani Heffner: Mas o que gasta mais dinheiro num projeto de animação? É uma parte do equipamento ou é o pessoal, são os artistas?

Carlos Saldanha: Olha, eu acho que é a combinação de fatores. Porque um filme de animação são três anos, quatro anos de produção. Então, você tem que manter uma equipe de trezentas pessoas. Os computadores rodando, tudo por três anos. É muito tempo para você ficar numa produção. Então, é caro porque demora muito tempo, e também tem a parte de... A tecnologia, você fica com um departamento só de pesquisa e desenvolvimento, que só trabalha em cima dessas, de água, de pêlo, essas coisas todas. E eles ficam, eles não são parte da produção, a gente tem que sustentar eles, porque a gente não consegue fazer... Porque quando a gente faz a conta da produção, o valor da produção é tudo contabilizado. A hora que você trabalha. Entra lá no registro e todo mundo é contabilizado. A parte de desenvolvimento não é, porque é uma coisa que é permanente da companhia, que não faz parte da produção, suporte da produção. Então, é uma coisa cara de você manter. Você manter cientista, pessoas, os computadores rodando, as pessoas desenvolvendo, sem ter uma produção para dar o apoio é complicado. Mas eu acho que também tem os atores, tem um monte de coisa.

Hernani Heffner: O desenvolvimento de pesquisa em tecnologia para animação é feito por esse setor permanente ou é dentro dos filmes?

Carlos Saldanha: É aquele negócio, o desenvolvimento tecnológico vem com a necessidade criativa. A gente tem uma idéia, como esse diretor, tem uma idéia de fazer uma coisa, água, ou pêlo. Você tem a idéia, vê o que eu tenho disponível, aí você faz um cronograma. Você junta o pessoal de desenvolvimento, fala: “eu quero que até tal dia a gente tenha essa técnica, porque a gente quer usar”. E foi o que aconteceu com a gente. A gente começou a trabalhar na técnica de pêlo antes de começar o filme. Ou seja, um ano antes de começar a produção, a gente trabalhou em cima desse desenvolvimento de técnicas, e tal, e vamos trabalhando em cima. Tem sempre aquela coisa de você, nem sempre ganha o que você quer, mas você negocia tudo. Tudo é uma negociação.

José Márcio Nicolosi: Na sua opinião, o que diferencia a Blue Sky da Pixar, da Dreamworks em termos de traço. Ou seja, quando você vai assistir um filme em 2D, tradicional de animação, você sabe que é da Disney, você reconhece. Os traços de muitos animadores, às vezes é incorporado pela empresa e acaba sendo um estilo. Os animes estão aí para definir o estilo japonês de fazer um filme. No caso da Blue Sky, os 3D’s, como você definiria um estilo peculiar da Blue Sky em relação à Pixar, Dreamworks, que também fazem o mesmo tipo de trabalho?

Carlos Saldanha: Eu consigo ver uma animação e falar: “essa animação é da Pixar”. No momento, eu consigo já diferenciar o estilo.

José Márcio Nicolosi: Time, o que é?

Carlos Saldanha: É time, é pause, o jeito como eles definem, e também a estrutura de roteiro. Eu sei mais ou menos o time das gags, como que ela vai fazer, entendeu? É mais ou menos uma coisa que é bem definida dos três estúdios. Mas na verdade, é bem definido. É quase tudo igual, porque é uma indústria. Eu tenho uma equipe de animação, que ela quase toda se mudou da Blue Sky para a Pixar, mesma coisa com a Dreamworks. Então, existe muito intercâmbio, vaivém de animadores. E você acaba aplicando, inspirando um ao outro a fazer um filme. Mas eu acho que o que a gente tem um pouquinho de diferencial. A gente é um pouco mais livre. Não tem aquela coisa: tem que ser Disney, tem que ser Warner. A gente não tem essa coisa de você ter que seguir um estilo. A gente criou um estilo que é uma mistura de tudo o que a gente faz. Tem um pouco de Chuck Jones, tem um pouco de Disney. A gente descobre quando a gente anima, então, a gente chama de Blue Sky stille.

Paulo Markun: Os filmes de animação costumam reforçar muito a relação da família, a pergunta é do crítico Luciano Ramos, que trata desses temas. Vamos ver.

[VT Luciano Ramos]: Carlos, meus parabéns pelo teu filme, eu gostei muito. Mas alguns colegas meus reclamam deles por se apresentarem meio politicamente corretos demais. E ser uma grande homenagem à família. O que, aliás, fica evidenciado naquela passagem, naquela seqüência em que o mamute conta uma história para as crianças. E que já, de certa maneira, antecipa o final do filme. Agora, eu queria perguntar se essa família, entre aspas, tão diversificada, tão variada, formada por um mamute, um tigre de dentes de sabre, dois gambás e um bicho preguiça, não teria sido inspirada nessa diversidade étnica. Nessa aceitação das diferenças culturais e raciais, que é uma característica típica dos brasileiros.

Carlos Saldanha: Bem, a gente procura, na hora de fazer um filme, o foco inicial é diversão, comédia, tudo. Mas a gente sempre tem que pegar um fundo dramático. A gente sempre tem que chegar e criar uma base dramática para ter um contraste também. Eu acho que a comédia funciona muito bem em cima de um drama, em cima de um, perigo, tudo. Esses contrastes que a gente procura criar. E na verdade, eu acho que um bom filme tem que ter essa mensagem. Qual é o objetivo do filme? E no nosso caso, desses personagens, é família. Então, a temática do primeiro filme e desse segundo filme é sobre a família, sobre uma família diferente. Uma família formada por pessoas, que é uma coisa também não só brasileira, é uma coisa muito americana. Nos Estados Unidos é muito comum você, hoje em dia principalmente, você ter essa coisa de pessoas. E não é só questão, ele está falando de raça, falando de cor, ele está falando também de personalidades. Às vezes, você juntas duas famílias, o pai divorcia, a mãe divorcia, e você junta duas famílias e forma uma nova família. Então, é tudo questão de tolerância, questão de você aceitar o outro como ele é. E você criar essa mensagem de que você pode ser diferente, mas ao mesmo tempo pode se relacionar.

[Cenas do filme A Era do Gelo II]

Paulo Markun: Eu estava me lembrando que eu cresci vendo desenhos animados em inglês, está certo? Porque naquela época, começo do tempo da televisão, você não tinha desenho animado dublado. E o que eu me lembrei um pouco é que esse tipo de historinha do esquilo é um pouco a essência desse desenho animado em que você não precisa ter texto. Aliás, porque o próprio esquilo não fala.

Carlos Saldanha: É o sonho de todo animador, você não precisa lidar com diálogo. Você só chega lá, anima e faz tudo através de mímica. E a gente aprendeu isso com Charles Chaplin, com um pessoal que já contava, já criava filme através da expressão corporal, através de expressões faciais, sem depender de diálogo ou de explicação. E nesse filme, na verdade, a gente passa uma boa parte do filme sem diálogo, é um filme que tem, eu acredito que, deve ter aí, um terço do filme, talvez, não tenha diálogo ou falas. São cenas que são visuais. E principalmente, eu acho que o grande sucesso dos Scrat, que é o esquilo, é o fato de ser uma linguagem universal, que você pode passar esse curta em qualquer lugar do mundo, que todo mundo vai entender. Não precisa ser traduzido, dublado.

Paulo Markun: Mas há uma referência nessa cena aí, como em outras cenas do filme. Há cenas clássicas de filmes, ali você tem um pouco de filme de karatê.

Carlos Saldanha: A gente faz uma paródia.

Paulo Markun: No outro você tem musical. No outro, a cena final, você tem um pouco dos filmes meio esotéricos assim, não é?

Carlos Saldanha: A gente se inspira. É tudo uma questão, a linguagem do cinema, a gente acaba se inspirando em outros, em clássicos, em outras situações. A gente acaba só fazendo uma variação. A gente adapta ao nosso, são as referências culturais que a gente cria. Na verdade, deixa eu ver qual é a palavra aqui.

Paulo Markun: Apropriações. Débitos?

Carlos Saldanha: Ai, meu Deus, quando você... São convenções, vamos dizer assim, que a gente estabeleceu através da linguagem de cinema, que já está na cabeça da audiência, que quando você bota, a pessoa se lembra, o filme do kung-fu, do cara lá. Mas uma coisa que eu ia falar, essa cena que acabou de passar, é um animal 100% brasileiro aí, piranha.

Paulo Markun: É verdade, não era da Era do Gelo, provavelmente.

Carlos Saldanha: Não, mas eu botei ali, não tem problema.

Álvaro de Moya: Artisticamente quem influenciou você não só em animação, mas também no cinema, na música, na literatura, e principalmente nos quadrinhos? Porque você estudou na School of Visual Arts, tinha um professor lá que era muito amigo meu, o Will Eisner. Gênio que criou o Spirit [série de quadrinhos criada por Eisner, em 1940. É a história de um detetive mascarado, Danny Colt, que não possui super-poderes, mas protege os habitantes da cidade fictícia de Central City] que foi o mestre de todos nós. Ele era, deve ser o mestre também do Márcio Nicolosi [desenhista], do Paulo Caruso. E eu queria saber quem influenciou a sua carreira.

Carlos Saldanha: A minha carreira foi uma coisa bem eclética, porque eu começava... O que estava a minha disposição eu gostava de ver. Um dos meus passatempos favoritos era a Turma da Mônica. Eu cresci lendo o gibi da Turma da Mônica. Até hoje eu compro e leio para as minhas filhas. Então, é uma coisa que eu mantenho, essa tradição. Uma coisa que sempre gostei, e gostava de ver até os filmes de animação. Eu tenho lá em casa os filmes de animação da Turma da Mônica que eu passo para as minhas filhas, elas gostam.

Álvaro de Moya: O José Márcio trabalha lá. Você sabe?

Carlos Saldanha: Eu sei. Então, é uma coisa que eu cresci vendo isso. Agora, tem os clássicos também. Eu nunca fui muito assim de me inspirar nesses gibis mais modernos do Marvel. Essas coisas mais de Super Homem. Eu gostava das histórias e tudo, mas eu nunca fui muito de ler isso. E música, livros, eu sempre fui fã de Monteiro Lobato, dos clássicos, e música também. Eu sou um cara que o meu rádio, meus DVDs, acho que é 99% de música brasileira, MPB, uma coisa assim, música clássica, música brasileira. Então, é uma coisa que eu sempre, eu gosto de ouvir, me inspirar.

Maria Fernanda Vomero: Carlos, falando em referência, você, às vezes, cita, quer dizer, geralmente você cita os filmes da Disney como referência, Pinóquio, Bambi. Mas você acha que atualmente o modelo Disney está ultrapassado, foi suplantado totalmente?

Carlos Saldanha: Não, eu acho que o modelo não. Eu acho que o que aconteceu na Disney foi uma transição. Eles perderam uma liderança criativa. Eles perderam por um bom tempo. E eu acho que não tinha ninguém lá dentro com esse espírito de: “vamos fazer filme pela arte do filme, vamos fazer um filme para ser bom, não é para ser um filme para ter mercado”. Eu acho que vários filmes foram bons. O Rei Leão, tem o próprio Tarzan, A pequena sereia, mas são filmes que ficaram um pouco mais comerciais. Tentaram, não são iguais eu acho, não têm a mesma mágica dos clássicos. Eu ainda consigo ver Fantasia hoje e ficar emocionado com as seqüências, como que o cara criou aquilo, aquela viagem? Aquela coisa dos hipopótamos dançando. O cara viajou ali. Então, essas viagens da animação é uma coisa que eu sinto falta. É uma coisa que eu acho que podia ter um pouco mais desse delírio imaginário.

Sérgio Martinelli: A Disney, nesses clássicos, ele sempre arriscava muito. E tinha o risco de fazer o filme, o filme podia dar muito certo ou de repente acabar com o estúdio.

Carlos Saldanha: Exatamente.

Sérgio Martinelli: Não tinha muita conversa.

Carlos Saldanha: E agora eu acho que a Disney deu uma parada no tempo. Eles não conseguiram alcançar. E, nesse mesmo período, a Pixar conseguiu criar, renovar essa parte de encantamento pela animação através dos filmes deles, que tinham histórias excelentes, personagens marcantes, tudo. E brincavam com esse imaginário de uma tecnologia, que você até esquecia que era computação gráfica. Porque você estava tão apaixonado pelo personagem, que você não pensava na técnica, e sim na história maravilhosa que o cara criou. E isso é uma coisa que a Disney perdeu. Eu acho que agora tem a chance aí de recuperar o glamour da história.

Roberto Sadovski: Carlos, você acha que hoje ainda existe espaço para animação tradicional? Porque a gente vê que os estúdios hoje investem muito em computação, em filme de computação, que é uma ferramenta, é uma técnica, é o que você falou. Mas a gente não vê mais a animação em acetato, aquela coisa, tanto que estranhamente no Oscar esse ano tinha um filme de animação tradicional, um de animação stop motion, um de animação com massa, nenhum de computação, mas... Para onde você acha que vai esse caminho? A gente vai poder ver de novo um filme de animação 2D no cinema?

Carlos Saldanha: Eu acho que sim. Eu gosto, eu ainda sou um cara que gosto de pensar que não existe diferença. A diferença está nas histórias, que os “caras” estão contando. Então, eu gosto de pensar que tem mercado para todo mundo. No momento, o mercado da vez é computação gráfica. Todo mundo quer computação gráfica, é o que está na moda. Todo mundo está fazendo, mas não sei se é uma coisa que vai continuar. E eu acho que só continua se as histórias continuarem sendo boas, se os filmes continuarem tendo o apelo emocional que as pessoas querem ver. Porque, o aconteceu? Infelizmente, o que aconteceu com 2D não foi questão de que a técnica ficou ultrapassada, mas eu acho que as histórias ficaram ultrapassadas. E, com isso, eu acho que o público perdeu um pouco dessa paixão pelo encantamento de 2D, porque chegou 3D. E justamente com o primeiro filme de 3D, o Toy Story, chegou já com tudo. O pessoal queria ver. Então, o pessoal: “vamos ver”.

Paulo Markun: Isso não significa que as histórias desses filmes de 3D são histórias, na sua maioria, dirigidas não apenas à criança. Quer dizer, o filme Era do Gelo II, qualquer adulto pode assistir e se interessar, se divertir. Eu imagino até que tem piadas ali. Tem situações ali, que a criança não vai entender.

Carlos Saldanha: Esse é o desafio. Porque, o que aconteceu? Essa nova leva de animação criou um mercado mais sofisticado. Foi aí que, para mim, são os novos anos dourados da animação em que você conseguiu capturar não só o público infantil, mas todas as idades. Esse foi um desafio em que você começou, e eu acho que não mais Toy Story, o Toy Story é o tipo do filme que a pessoa, eu acho que todo mundo gosta. Mas eu acho que o Shereck foi o filme que deu aquela virada total, que conseguiu pegar um humor mais... Então, eu acho que pegou um público que todo mundo começou: “a animação é legal. A animação, eu vou me divertir”. E também você chega, às vezes você paga, vai para um filme normal, live action, você paga o tíquete que não é tão barato para ver o filme. Aí o filme não é nem tão bom. Aí você vai à animação – animação tem essa fama – é diversão garantida. Você pode ir, o adulto, a criança, que vai se divertir. E os roteiros, a gente trabalha três anos no roteiro, dois anos. Então, a gente fica lá martelando as falas, a estrutura, para fazer um filme completo, um filme que agrade todos.

Álvaro de Moya: E o que você acha dos japoneses, mangá e anime?

Carlos Saldanha: Eu sou fã dos japoneses, mais especificamente do Miyazaki [(1941), desenhista, iniciou sua carreira em 1963 no longa-metragem Watchdog bow wow. Em 1982, criou seu próprio estúdio de animação: o Estúdio Ghibli. Além de desenhar mangás para a televisão, Miyazaki produziu várias animações. Em 1996, estabeleceu uma parceria com a Disney, onde fazia a distribuição de seus filmes pela empresa. É autor do filme Viagem de Chihiro (2001) e Castelo animado (2005)] A gente estava falando daquele negócio de desafio, de buscar novas idéias, de recapturar essa mágica da animação. E eu acho que, hoje em dia, a pessoa que ainda carrega esse sentimento é o Miyazaki. Ele consegue criar histórias que não têm, talvez, tanto fundo comercial. Ou seja, são filmes que fazem muito sucesso no Japão e no mundo inteiro. É uma coisa que fica assim, mais isolado ao grupo especializado, pessoas que gostam de animação. E ele é uma pessoa brilhante, que ele consegue viajar no imaginário, consegue trazer o mundo que você nunca viu antes. Você consegue, apesar de ser cultura diferente, você consegue se envolver na história.

Álvaro de Moya: Mas é anime, é um desenho animado mais...

Carlos Saldanha: É animação japonesa. Mas existe um pouco dessa influência, que tudo, o estilo dos personagens, o visual, carrega um pouco desse mangá, do anime, o traço dele influenciou muito. Porque o Miyazaki já está na área, é o Disney da animação no Japão. Ou seja, muita gente foi influenciada pelo trabalho dele. Então, é uma coisa que, na verdade, a animação japonesa, talvez seja o mercado que, no momento, influencia mais a animação americana, no sentido de estilo, de novidades, de história, não só animação, mas como filme.

Sérgio Martinelli: No mercado hoje, a gente tem 60% na animação exibida em televisão no mundo inteiro, praticamente é estilo anime. Agora, o estúdio de vocês não pensa em produtos para televisão?

Carlos Saldanha: No momento não, no momento... É um estúdio relativamente pequeno, nós somos, apesar de falar trezentas pessoas, tudo, comparado com outros estúdios, a gente é pequeno. Então, o nosso projeto é fazer filme. A gente consegue fazer filme a cada dois anos. Então, criar uma subdivisão para televisão é uma coisa que...

Sérgio Martinelli: Mas para explorar os próprios personagens do Era do Gelo?

Carlos Saldanha: No momento não tem nenhuma idéia, não sei se alguém está pensando nisso.

Sérgio Martinelli: É um universo bacana.

Carlos Saldanha: É...

Luiz Carlos Merten: Carlos, eu quero voltar ao tema da família. Mas a tua família. Tu já citastes aqui duas filhas que tu tens. Elas influenciam de alguma maneira o teu trabalho, embora trabalhe para todos os públicos, e te perguntaram antes se os executivos do estúdio limitam o teu trabalho, e quem sabe em casa, as tuas filhas te estimulam a criar alguma coisa mais ousada? Como é isso?

Carlos Saldanha: Olha, é difícil nesse tipo de cronograma, você conciliar família e trabalho. Porque você acaba, sempre alguém acaba perdendo um pouco. E no final, eu acabo perdendo mais, porque eu acabo não podendo acompanhar tanto, o dia-a-dia delas por estar no trabalho a maior parte do tempo. Mas a gente procura, a gente tem um acordo. A gente procura sempre, ao máximo, estar junto cem por cento todo a vez que estamos juntos. Na verdade, as minhas filhas só viram o filme pela primeira vez no domingo passado, na pré-estréia lá nos Estados Unidos. Eu mostro seqüências, eu mostro um personagem para ver se elas gostam, se elas riem da gag que eu criei ali, do momento. Então, elas têm muita influência. Agora, a influência maior que a minha família tem no meu trabalho é o dia-a-dia. É a minha experiência de observá-las, como elas se movimentam, como elas são, a personalidade, as tiradas que elas têm. Porque criança é uma coisa fabulosa, criança é uma coisa bem autêntica. Então, você consegue tirar muitos elementos de idéias, através de só olhar os filhos, os amigos, a família.

Paulo Markun: Agora, como é que você foi parar nos Estados Unidos? Porque o que eu li é que é uma história insólita.

Carlos Saldanha: É, eu falo muito das minhas filhas, mas eu não posso deixar de falar da minha esposa. Porque o fato, a razão de eu estar aqui hoje em dia com esse sucesso foi 90%, 99% do apoio familiar. Eu tinha 22 anos, hoje em dia, eu fico imaginando a minha filha saindo de casa com 22 anos, eu fico pirando.

Paulo Markun: Se prepare.

[Risos]

Carlos Saldanha: É, então, e eu fiz isso, eu fiz isso. A minha esposa tinha 19 anos, eu tinha 22 anos, ela estava quase para 20, fazendo faculdade no Rio de Janeiro, eu tive essa idéia maluca de vir para os Estados Unidos, a gente era noivo, eu falei: “vamos casar”. Era julho. Vamos casar em dezembro, vamos ver se em seis meses? Casar? Como assim? Tranca a faculdade, vamos para os Estados Unidos, você vem? Vai dar certo, a gente vai. Ela falou: “Vou”. Aí, em seis meses, pegou vestido emprestado de amiga, casamos na igreja, ela estudava no Sion, a tia dela era madre superiora no Sion, conseguiu a igreja para a gente em dezembro. A gente casou sem festa, sem nada, parecia primeira comunhão, porque a gente era muito novinho. O padre olhou para a gente assim, falou assim: não, isso não é casamento, é primeira comunhão que você está fazendo aqui...

Luiz Carlos Merten: Não vai dar certo.

Carlos Saldanha: Mas então a gente foi na cara e na coragem para os Estados Unidos. Chegamos lá e aos pouquinhos as coisas foram acontecendo. O apoio, o suporte emocional e tudo da minha esposa foi essencial para a gente conseguir estar onde eu estou. E a gente continuou essa experiência através dos filhos. Eles nasceram. Eu já estava trabalhando muito, eu já estava fazendo animação. E a gente conseguiu estruturar a nossa vida para que a família seja a parte principal. Eu acho que nada substitui, o meu emprego é muito importante, tudo. Mas se acontece alguma coisa com a minha família, pode estar deadline amanhã que não sai, a família vem em primeiro lugar.

[Cenas do filme A Era do Gelo II]

Paulo Markun: Bom é a típica cena que tem toda essa inspiração dos musicais.

Carlos Saldanha: Dos clássicos.

Paulo Markun: Dos clássicos musicais, talvez até mesmo da animação. Porque todas as referências que você faz são mais de animação do que de cinema. “Cinemão” mesmo. Você não é um grande cinéfilo?

Carlos Saldanha: Eu gosto. Antes de fazer animação o meu passatempo favorito era filme. Eu gosto dos clássicos do cinema. A gente estuda muito também, porque nos clássicos, você consegue pegar os elementos que às vezes são esquecidos hoje em dia pelo cinema.

Paulo Markun: Coreografia?

Carlos Saldanha: Coreografia, diversão. E animação tem um pouco disso. Então, você conseguir juntar esse elemento de, trazer essa nostalgia, essa coisa de volta, é uma coisa muito legal. Eu gosto muito, principalmente esse tipo de coreografia é uma coisa muito divertida. É uma coisa assim bem de exagero, aquela coisa que você via os musicais dessa época, são coisas magníficas, monstruosas, com duzentas pessoas dançando perfeitamente. E esse exagero faz parte da animação, animação é você exagerar, você chegar e pegar uma expressão e puxar o limite de cada momento. Eu acho que combina muito.

Luiz Carlos Merten: Carlos, já falamos aqui das suas referências, influências sobre esse tipo de coisa, mas tu tem a animação preferida, o teu “cântico”, como a gente diz?

Carlos Saldanha: Aí, meu Deus, é difícil porque eu acabo...

Luiz Carlos Merten: A primeira que vier, não fica pensando.

Carlos Saldanha: A primeira que vier? Olha, eu sempre acabo caindo no Disney, eu sempre acabo caindo no Bambi. Eu acho que é o filme que eu acho que até hoje é um clássico. Eu admiro muito. Porque ele conseguiu fazer um filme que tem um filme artístico muito forte. E até foi muito interessante, porque tem um festival, tem uma premiação em Los Angeles, que se chama Annie Awards, eles chamam do Oscar da animação. E eles premiaram esse ano, um dos artistas que criaram os backgrounds, criaram os fundos do Disney. E agora, hoje em dia, é um senhor, um velhinho. E a pintura dele é uma coisa incrível, ele mostrando, é uma obra de arte. Eu admiro muito esse carinho e vontade de fazer um filme que não é só um filme, é uma coisa que vai ficar para a história, ficou para a história. Então, é um filme que sempre passa na minha cabeça. É engraçado, você consegue ver um filme que tem uma parte dramática do filme, perda da mãe, uma coisa muito forte se pensar que o filme foi feito em 1930, 1929. E tem esse lance do meio ambiente humano invadindo o espaço dos animais. É uma coisa que, atualmente seria perfeito, iria funcionar muito bem. E eu também, Tom & Jerry também é uma coisa, para mim, que é inesquecível. Eu tenho os DVD’s. Eu assisto com as minhas crianças, a gente ri o tempo todo, uma coisa impressionante.

José Márcio Nicolosi: Eu queria saber de você qual é a avaliação que você faz da animação brasileira. Quer dizer, ela tem tradicionalmente uma força na área comercial, na área publicitária, animação de comerciais, longas ainda está começando a constituir isso. Mas qual a avaliação que você faz? O que você acha da animação brasileira?

Carlos Saldanha: Bem, a animação brasileira, eu procuro manter bastante contato, principalmente o pessoal do Anima Mundi lá no Rio, que é aonde eu vou a maior parte das vezes. Conheço o pessoal de publicidade, tem um grupo de profissionais fazendo um bom trabalho, e tentando aumentar o padrão e criar coisas novas, idéias novas. A dificuldade, eu acho, da animação brasileira no momento é justamente espaço. É você ter incentivo, você ter um mercado que consiga consumir essa animação. Porque lá nos Estados Unidos é praticamente uma indústria, é uma coisa impressionante. Você não pode nem querer comparar Estados Unidos com nenhum lugar do mundo. Vou falar assim, no geral, porque não é Estados Unidos, Europa, não, não. Os Estados Unidos em si, tem Estados Unidos aqui e tem os outros paises que estão tentando também a mesma coisa. O Japão é uma coisa à parte, mas... Então eu acho que esse é o início. E é engraçado, porque quando eu venho para festival de animação aqui para ver os trabalhos, para ver o que pessoal está fazendo, tem muita coisa boa, muita coisa boa. Muita idéia nova, coisas voltadas à cultura brasileira, e o crescimento do festival tipo Anima Mundi é uma coisa impressionante. Eu vim pela primeira vez, acho que há dez anos atrás, doze anos atrás, era uma coisa assim... Já era um festival que tinha várias pessoas, e tudo. Aliás, a última vez que eu fui, o ano retrasado, que eu vim, cinqüenta mil pessoas foram ver. E você vê crianças, você vê escola, não é gente do ramo, é o público mesmo querendo ver, se divertindo vendo animação. E isso é uma coisa muito importante. Porque se tem público vai ter trabalho para mostrar. Então, eu espero que continue assim a crescer, para poder criar uma cultura de animação que as pessoas consigam apreciar e pedir trabalhos maiores.

Hernani Heffner: É uma pergunta no mesmo sentido, mas você acompanha os filmes. Você acompanha regularmente a animação brasileira, você vê os filmes, você tem contato direto?

Carlos Saldanha: Eu vejo alguns curtas e vejo o que tem disponível para eu ver, através das pessoas que eu conheço. Eles me mandam clipe, me mandam idéias, tudo. Mas eu ainda não vi muito curta brasileiro. Eu vejo quando eu vou nos festivais, mas eu ainda não tenho muito acesso a esse tipo de trabalho. Eu vejo mais a parte comercial, eu vejo mais... Os rolos que eu recebo de filme tem muito mais trabalho comercial do que trabalho próprio, trabalho individual, não é? E eu só consigo ver esses trabalhos quando eu vou para festival. Os trabalhos que eu vi, os últimos trabalhos que eu vi foram os clipes que eles fizeram. Tem um para o Frejat, depois tem outro para o Gilberto Gil, que fizeram um clipe. Foi lá no Rio, o pessoal da Seagulls Fly, o pessoal da Conspiração, da Conseqüência, que são pequenos estúdios que fazem um bom trabalho. Então, é muito interessante. Achei uma qualidade boa, com estilo, criaram um estilo meio de massinha, que fizeram coisa diferente, estão querendo inovar. Estão querendo chegar ao mercado de uma maneira, criar um diferencial na animação. Isso que é o princípio, não é?

Maria Fernanda Vomero: Carlos, você já trabalhou com efeitos especiais. Você tem vontade de voltar a trabalhar com isso? E como é que você avalia os filmes que hoje em dia recorrem a esse recurso?

Carlos Saldanha: Vontade de voltar a trabalhar a não ser que tenha oportunidade. Eu esteja trabalhando, vamos supor, eu trabalho num filme de live action que tenha efeito especial. Aí eu acho que eu trabalharia numa boa. Mas para fazer efeito para filme, eu acho que, no momento, não. Eu não voltaria. Mas eu adoro ver filme de efeito especial, filme de ficção científica, eu curto King Kong, aquela coisa. Eu acho incrível, admiro muito. Porque é muito difícil fazer. Então, é uma coisa que eu tenho total respeito pelo trabalho das pessoas. E quando você consegue, quando eu consigo ser enganado. Eu adoro ser enganado no cinema. Eu gosto de ver o filme, ficou perfeito. Eu não notei o efeito especial. Então isso, o legal do efeito especial é isso, essa brincadeira.

Sérgio Martinelli: Mas todo animador fica procurando o "pulo do gato".

Carlos Saldanha: Ah, direto. Eu parei de fazer isso, sabia? Porque eu acabava não aproveitando os filmes. Eu ficava vendo os filmes assim: cadê o erro? Aí eu falei: não, a partir de agora eu vou ver o filme para ver filme, quero ser enganado de monte, quero completamente aproveitar o filme.

Álvaro de Moya: E a animação canadense, o que você acha?

Carlos Saldanha: A animação canadense tem uma tradição muito grande. Tem uma escola fantástica, que é a Sheridan [College de Ontário], que é uma escola que tem uma animação fantástica. Temos vários animadores no Canadá, mas eles têm aquela tradição quase que européia de animação. É uma coisa assim bem... Ganharam vários Oscars de curta de animação. Mas de novo, é um lugar que o mercado não é tão grande. Então, eles acabam vindo para os Estados Unidos para trabalhar, ou fazem trabalhos lá secundários. O filme da Disney – o próximo a ser lançado – foi, praticamente, feito em Toronto. Eu não sei, eu não tenho acompanhado os últimos trabalhos. Mas tem sempre algum trabalho canadense, um curta que está sendo feito. Eles não têm muita tradição de longa ainda. Fazem longas, mas subsidiados por estúdios americanos, com roteiros americanos e tudo.

Sérgio Martinelli: Agora, isso funciona meio como laboratório de pesquisa. Porque eles experimentam muitas técnicas. E fazem vários filmes misturando técnicas.

Carlos Saldanha: Nesse sentido eles estão mais avant-garde. Eles têm mais essa tradição, vamos dizer, de explorar técnicas diferentes. Eles prezam muito pelas técnicas tradicionais como início. Como fundação básica para um bom animador. Então, geralmente um animador que vem do Canadá tem uma habilidade de desenho muito forte, já trabalhou com 2D. Ele consegue, conciliar o lado tradicional de 2D, de desenho, de traço, com 3D. Então, o aluno chega mais preparado. Então é uma coisa muito... Então a gente sempre vai para lá. E todos os estúdios vão para lá para fazer recrutamento.

Sérgio Martinelli: Para pegar gente.

Carlos Saldanha: Para pegar gente.

Sérgio Martinelli: Agora, deixa eu recuperar a questão. O seu trabalho de direção, como é que foi dirigir grandes atores do cinema americano na hora da dublagem? John Leguizamo, que já é uma figura assim.

Carlos Saldanha: Foi tranqüilo. Porque, parte do time eu já conhecia por causa do primeiro filme. Então, era uma coisa assim. Foi tipo uma reunião de novo. Eles já conheciam os personagens. Então, num certo ponto, foi até que tranqüilo. Mas na verdade, eles são pessoas comuns como todos nós, eles estão ali, têm os desafios próprios, porque eles estão ali em frente ao microfone. Têm que fazer uma performance sem ter um set de filmagem em volta deles. Sem ter alguém para ajudar, para puxar. Então, é muita coisa, assim, de eu e ele, eu e ela ir trabalhando, e ir fazendo com que a gente consiga tirar a emoção. E é difícil, a gente chega para o cara e fala assim: “faz, agora você está caindo do precipício, grita”. É diferente de você jogar o cara, pegar...

Maria Fernanda Vomero: E às vezes você adapta o personagem, de repente o ator acha um recurso que você não tinha pensado?

Carlos Saldanha: Com certeza, tem muita essa coisa de improviso também. Você dá o roteiro, ele lê, e fala a fala, e dá uma modificada. Principalmente o Leguizamo, que fez o Siderik, ele improvisa muito, e é muito divertido. E às vezes, até a [atria]Queen Latifah improvisa. Porque ela falava assim: “ai, eu não falo desse jeito não, isso não está escrito para mim. Eu não consigo falar dessa maneira que você escreveu”, eu falaria assim. Aí ela fala do jeito dela, tem o mesmo sentido, tem tudo. Mas do jeito que ela, como atriz, consegue se expressar. E é muito legal isso. Eu descubro muita coisa, muita novidade.

Roberto Sadovski: Como foi dirigir o Chris Wedge?

Carlos Saldanha: Ah, o Chris é fácil. O Chris é de casa. Então, é tranqüilo. Coitado, o personagem dele é o que mais desgasta. Porque ele tem que fazer os sons. Ele tem que fazer o som do esquilinho, ele tem que ficar forçando a garganta dele. Então, a gente faz vinte minutos, dá uma parada. Faz vinte minutos, aí depois...

Roberto Sadovski: Me fala uma coisa, Carlos, a maioria dos filmes de animação hoje, eles são, apesar de ter histórias que são mais globais, eles ainda são vistos como filmes infantis, tal. Embora os adultos curtam do mesmo jeito, você sente falta de outros gêneros usando animação como mídia? Tipo, a gente não vê filme de terror em animação, a gente não vê muita ficção científica em animação. Você sente falta disso?

Carlos Saldanha: Não sei se eu sinto falta, porque eu nunca vi um filme que tenha esse perfil e que me interessasse. A não ser, o filme japonês tem um pouco esse perfil mais, esses do mangás, essas coisas assim. Têm alguns deles que a gente chama assim, um pouco mais adulto, vamos dizer assim, com enfoque mais violento, essa coisa. Então, tem muita coisa interessante ali. Mas nos Estados Unidos agora, eu começo a ouvir história de estúdio fazendo filme que é voltado para o terror, voltado para um público mais adulto, que não é para criança, que vai ter, não vai ser mais o que eles chamam de censura livre. Vai ter uma coisa assim, de pessoas a partir de 17 anos...

Sérgio Martinelli: Esse Noiva cadáver você não conhece?

Carlos Saldanha: Não, eu não gosto. Porque é um filme que é adulto, mas tem uma fantasia em volta, tem uma coisa de Tim Burton. O Tim Burton como diretor, como artista, é um cara extremamente criativo, tem uma coisa, tem esse apelo mais adulto também. Mas continua sendo um filme mais para um público mais jovem, assim mais...

Paulo Markun: Última pergunta, Carlos, óbvia, se você tivesse alguém de vinte anos para aconselhar que queira fazer animação, qual seria o conselho?

Carlos Saldanha: Olha, o único conselho que eu consigo dar é a minha experiência própria. Eu acho que a pessoa tem que correr atrás do que quer. Eu acho que a pessoa tem que ir, e não é fácil, não está aí para todo mundo. Eu acho que, eu não sei se eu sou uma exceção ou uma regra, eu não sei me posicionar nesse sentido. Mas o que eu costumo passar para as pessoas é o seguinte, nada vem de graça. Tudo vem com muito suor, muito trabalho, muito estudo, muita perseverança. Tomar na cabeça, levantar, é meio que nem o esquilinho, entendeu? Ficar ali tentando pegar a noz até conseguir. No caso dele, coitado, não consegue, mas tudo bem. Mas no caso da gente, eu acho que a gente tem chance, você tem que correr atrás. Então, o conselho que eu dou, se é isso que você quer fazer, é realmente o que você quer fazer, parte para frente. Vai procurar uma faculdade aqui, na Europa, nos Estados Unidos, aonde for, aonde você se sentir melhor, onde você achar. Vai estudar, vai correr atrás, vai trabalhar muito, vai aprender, porque tudo começa com o aprendizado, tudo começa na parte do estudo mesmo e muito trabalho. Porque a gente fala: você faz animação e você se diverte. Realmente eu me divirto, porque é a minha paixão, trabalhar com o que você gosta é muito melhor. Porque você precisa gostar de animação para poder ter inspiração para fazer bons trabalhos para divertir as pessoas. Tem que sair realmente do coração. Tem que sair realmente da alma você fazer um filme. Porque você tem que transmitir isso para as pessoas, essa mensagem positiva, essa coisa do apreço pelo gostar de fazer, do detalhe, da qualidade, uma coisa de alma. Então, você tem que correr atrás disso. E eu acho que é o conselho que eu dou, vai fundo.

Paulo Markun: Carlos, muito obrigado pela sua entrevista, obrigado aos nossos entrevistadores, a você que está em casa, e nós estaremos de volta na próxima segunda-feira com mais um Roda Viva. Uma ótima semana e até segunda.

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